É tão difícil descrever o que se sente enquanto se lê "O Inocente" que qualquer resenha deve ser escrita de forma cuidadosa. Apesar do meu incipiente repertório literário, este romance pode ser definido como uma obra-prima. O que pode parecer exagero pelo fato de este livro estar relegado em meio às outras obras publicadas por McEwan.
Ao ler as orelhas da edição publicada pela Companhia das Letras, este livro parece tratar-se de um romance de guerra, mas ela não passa de um pretexto. Antes de mais nada, "O Inocente" é um livro que trata das relações humanas e, fundamentalmente, do amor. O amor como reflexo da imaturidade, o amor como consolo para quem sofreu todas as desgraças da guerra e parece não ter outra saída para escapar da solidão.
Leonard Marnham, "O Inocente" que dá título à história, é um jovem inglês recém-saído da casa dos pais vivendo na Berlim devassada pelos horrores da guerra. Enquanto trabalha num projeto em parceria com os norte-americanos, ele conhece Maria Eckdorf, uma mulher mais velha que parece destinada a ser alvo de todos os preconceitos celebrados pela mente humana. É nessa mulher mais velha e aparentemente frágil que ele encontrará o caminho que o levará a sair da fronteira que o separa da vida leve e ingênua que levava em Birmingham para a vida adulta, a vida dos homens maduros que são obrigados a responder pelos seus atos, mesmo que isso se dê da forma mais dura e cruel.
A história é permeada por momentos leves, puros, líricos, como quando McEwan descreve a visão de Leonard, em que ele projeta a ideia de sua amada andando de bicicleta pelas ruas de Berlim. E outros capazes de arrepiar, tal é a perícia do autor em descrever as sensações e o estado psicológico dos personagens, como quando Maria é colocada na iminência de um estupro, onde podemos sentir seu pavor e sua angústia.
Envolvente, belo, lírico e chocante.