Fichte - Os Pensadores

    Johann Fichte

    Nova Cultural
    1988
    322 páginas
    10h 44m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Coletânea de obras do filósofo Johann Fichte. Inclui Sobre o Conceito da Doutrina-da-Ciência ou da Assim Chamada Filosofia; A Doutrina-da-Ciência de 1794; O Princípio da Doutrina-da-Ciência; Comunicado Claro Como o Sol ao Grande Público Onde se Mostra em que Consiste Propriamente a Novíssima Filosofia; A Doutrina-da-Ciência e o Saber Absoluto; Introdução à Teoria do Estado.

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    gabriel16/02/2022Resenhou um livro
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    Fichte, um filósofo da liberdade

    Nos últimos meses, estive em companhia deste singular pensador, um dos mais brilhantes do período conhecido como "idealismo alemão", ali pelo final do século dezoito e início do dezenove. Porém o nome "idealismo" não dá conta de sua riqueza de ideias, às vezes atrapalhada pela sua própria opção em não dar freios ao seu impressionante pensamento, o que leva a passagens de entendimento bastante obscuro. Ler este autor é aplicar a si mesmo uma injeção de otimismo: garante este pensador que a verdade é algo acessível a qualquer ser racional, sendo então uma filosofia profundamente anticética (não confundir, é claro, com "antisséptica"). E não somente isso, ela pode ser construída por qualquer um, do zero. Promissor! Pelas suas linhas, ganhamos autoconfiança e autonomia. Liberdade e ser se entrecruzam em complicados raciocínios, que tentam justificar e esclarecer isso. Não há o real nas coisas: ele está em nós mesmos, idealmente, numa curiosa fusão entre sujeito e objeto. Somos, eternamente, este ponto de encontro privilegiado. Mais kantiano que o próprio Kant, propõe ele que nos livremos da "coisa-em-si", a azeitona na empada de qualquer filósofo. Afinal, o que fazer com uma coisa que é "em si"? Ela nunca será "para nós" e está perdida num limbo filosófico. A coisa-em-si, então, é implodida por dentro, e entramos no maravilhoso mundo da consciência, que é a justificação de si mesma e o início de tudo. Enquanto Descartes saca do banco "Deus" o índice de realidade, Fichte aqui coloca todas as suas fichas na egoidade, um eu infinito para o qual as coisas estão em relação de submissão, e não o oposto. As coisas assim são porque nossa consciência assim é; e pior, só poderia assim ser. Se a filosofia de Fichte fosse a "Matrix", metáfora impressionante das Irmãs Wachowski (em filme de mesmo nome), não existiria nada por trás dela: ao se retirarem os fios, Neo e companhia estariam na companhia de si mesmos. Somos, então, a nossa própria matriz. O filósofo, porém, pode se elevar acima disso, e entendendo os secretos mecanismos da consciência, libertar-se dela própria. Assim, filosofia e liberdade se engendram, orientando a vida. Coletânea de textos da série "Os Pensadores", temos aqui um pequeno e selecionado extrato da carreira deste autor. Em todos eles, a temática se repete, com estratégias diferentes de exposição. Chama a atenção o caráter "oito ou oitenta" do texto: ou é muito claro, ou é muito obscuro. Há um esforço legítimo em tentar ser claro, o que gera alguns dos textos mais agradáveis e ricos da filosofia. Eles são altamente recomendáveis, mesmo para leigos. Os demais, no entanto, são por conta e risco, e inserem o leitor numa perigosa "montanha-russa intelectual", com pontos muito esparsos de claridade. Recomenda-se fortemente a leitura de "Comunicado claro como o sol": de fato, o texto é extremamente claro e acessível, podendo ser lido de maneira tranquila, e propondo pequenos exercícios de reflexão. Alerta-se para o perigo da "Grundlage", que aqui é traduzida como "A Doutrina da Ciência de 1794". Texto considerado base do autor, talvez mais por uma tradição de comentadores (já que o próprio autor dá mostras de ter abandonado, depois, este estilo de exposição), é provavelmente um dos mais difíceis do gênero. Me pergunto, com toda a humildade que isso possa implicar, se realmente é um texto que vale a pena ser enfrentado. Apesar de tão importante para o autor, e como diz a edição, "para todo o idealismo alemão" (seja lá o que isso signifique; sempre desconfie dos "ismos"), não há garantia de pote de ouro, no final do arco-íris. Fico, então, com os textos mais agradáveis, e que respeitam o leitor. Vale, então, a pena conhecê-lo, mas enfrentar os seus intricados labirintos pode ser uma tarefa para poucos iluminados. A edição recomenda aqui um texto auxiliar do próprio tradutor, o poeta Rubens Torres Filho, para um melhor esclarecimento. Eu li este texto e não achei assim tão útil. Porém ele puxa um bom fio condutor, a partir da ideia de "imaginação" do autor. Vale a pena por isso. A edição que eu tenho, com a capa "arco-íris", é talvez uma das piores da série "Os Pensadores". Edição mitológica que já circula na minha família há anos (tendo pertencido ao meu pai), é um milagre que ela esteja ainda inteira. A do Nietzsche já foi pro espaço há anos. Talvez isto mostre a diferença de qualidade entre ambos. Recomendo, então, uma edição em capa dura, facilmente encontrável em sebos da vida. Esta aqui tem a capa mole, horrorosa. Boa parte do material são respostas aos críticos, o que gera momentos divertidos e ótimos debates. Fichte faz parte do time dos filósofos pretensiosos: se Sócrates e sua fundante "só sei que nada sei" é pedra basilar da atitude filosófica, aqui ele sabe tudo, só ele está certo e sua doutrina é científica. Até mesmo propõe deixar o nome "filosofia" aos leigos e diletantes. Aqui, é "doutrina-da-ciência". No final, há uma introdução à sua teoria do Direito, o que é interessante por ver suas concepções altamente abstratas sendo aplicadas a algo minimamente real. Porém só ficamos na introdução mesmo, em que só se apontam algumas dessas possíveis aplicações.

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