Sagrada sacanagem
Humor refinado. Uma história original. Dois elementos que nas mãos de Moacyr Scliar viram magia. E que magia. É incrível como a ficção abre possibilidades para o imaginário, não é mesmo? É o desconhecido tangível. Em A mulher que escreveu a Bíblia, Moacyr Scliar exerce com proeza a arte milenar de contar histórias. E faz mais: faz isso com uma obra histórica. Partindo de uma premissa muito básica que envolve o principal documento da cultura judaico-cristã, Scliar deixa claro logo nas primeiras linhas que somente o território da ficção torna o impossível possível. A leitura desse livro é sobretudo divertida. Não há como sair indiferente e não dar pelo menos uma risada das situações vividas pela nossa protagonista. E tem mais: Scliar cria uma voz feminina com propriedade aqui, e mesmo não sendo natural, é crível. Além disso, brincar com situações que povoam o imaginário coletivo e com personagens que podem ter sido reais ou, melhor ainda, ficcionais, é um campo perfeito para um escritor que conhece bem suas qualidades de escrita - e o gaúcho sabia muito bem das suas. Posso estar errado, mas identifiquei alguns acenos para o clássico ocidental O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, pois há discussões sobre vaidade, pecado, poder e a eterna - porém tosca - batalha entre beleza e inteligência, aqui muito bem explorada. Ah, é claro, e a história tem bons momentos sobre sexo, algumas pitadas (ou seriam observações?) de feminismo e os malditos espelhos! A mulher que escreveu a Bíblia é um oásis em nossa produção recente, vale a pena se perder nele. É fácil de ler, gostoso de acompanhar e imprescindível para indicar. Além disso, funciona como um belo cartão de visitas para a produção do acadêmico Scliar. Virou favorito.







