Finalmente, após alguns meses, voltei ao universo de Fundação para concluir a saga com Origens da Fundação. A história começa com Seldon após oito anos tentando desenvolver a psico-história, mas ainda sem resultados concretos.
O livro repete a técnica usada por Asimov nos demais volumes: saltos temporais que aceleram a narrativa, mostrando Seldon envelhecendo e enfrentando novos opositores políticos. O primeiro arco gira em torno da tentativa de golpe contra Demerzel; já no segundo, dez anos se passaram e Seldon ocupa o posto de primeiro-ministro. Mas, embora a estrutura seja familiar, senti que os conflitos necessitavam de peso real. São conspirações, rebeliões e atentados que nunca chegam a gerar consequências sérias. Tudo se resolve no último instante, quase sempre por conveniências narrativas que lembram planos mal elaborados de quadrinhos infantis.
Outro ponto que me incomodou foi o tratamento dado a Dors Venabili. Antes, em Prelúdio à Fundação, apresentada como uma personagem forte, destemida e até mesmo opiniosa, aqui é reduzida ao papel de protetora passiva de Seldon, sustentando o lugar-comum da mulher que existe apenas para manter a calma ao redor do “gênio” masculino. Além de soar misógino, há momentos em que Dors é descrita de maneira incoerente com sua natureza robótica, expressando ciúmes, preconceito e até moralismo barato diante da escolha de Raych, seu filho adotivo com Seldon, por Manella como esposa. A rivalidade feminina instaurada entre duas das três únicas mulheres da trama só reforça a fragilidade na construção das personagens.
A condução de Seldon também decepciona. A figura lendária e estratégica apresentada na trilogia original dá lugar a um homem que envelhece reclamando desde os quarenta anos e que é imprudente a ponto de colocar o próprio filho em missões arriscadas e desnecessárias. Quase no final do livro, sua insistência em se expor ao perigo nas ruas de Trantor, mesmo após agressões e prisões, beira o absurdo. Em vez de um homem sábio e de um visionário pragmático, encontramos um personagem constantemente salvo por terceiros e por conveniências narrativas.
A leitura teve seus méritos: o texto é fluido, recheado de diálogos, e o simples fato de retornar ao universo de Fundação ainda desperta curiosidade. Contudo, a sucessão de vilões e conspirações frágeis torna a experiência cansativa. Faltou peso, faltaram consequências, e sobrou a sensação de que tudo era inflado apenas para justificar novos capítulos.
No fim, a obra conduz diretamente ao ponto de partida da trilogia original, mas deixa um gosto agridoce. Senti insatisfação pelo desenvolvimento de Seldon e pelo empobrecimento das personagens femininas, mas também satisfação pessoal por concluir essa jornada, mesmo que nesses últimos quatro volumes que expandem a saga eu não tenha encontrado o mesmo brilho da trilogia original. Foi uma leitura de altos e baixos, que só se sustentou pela força do universo criado por Asimov e pela companhia do meu grupo de leitura, que tornou o processo muito mais prazeroso.