Eu não sou fã de memórias, devo admitir. Acho que escrever sobre si mesmo sempre é uma opção menos atraente para qualquer um que deseja exercer o árduo ofício da escrita. Tenho a impressão que diminui o horizonte de uma reflexão. Creio, talvez ingenuamente, que o desconhecido parte sempre do outro e não de mim.
Pois bem. Este foi o meu primeiro contato com o trabalho de Natalia Ginzburg. Conhecida por seus textos autobiográficos, esta autora italiana procurava entender as relações humanas, principalmente as relações familiares, a partir da própria vivência. Em As pequenas virtudes essa linha não é diferente. Nos onze textos dispostos aqui, divididos em duas partes, encontraremos muita tristeza, sofrimento e beleza. Há, obviamente, um excelente rigor técnico na escolha das palavras, que é inegável, além de muita intimidade, como é de se esperar neste tipo de escrita.
Eu tenho predileção por ensaios que não tragam uma contaminação de intimidade de quem os escreve, mas aqui é impossível fugir dessa variável. Por isso vou me concentrar nos seguintes textos: La Maison Volpé, Ele e eu, O meu ofício e Silêncio. Nestas quatro peças, duas na primeira parte e duas na segunda, ficam os textos mais proveitosos do livro. Para saber mais sobre os outros ensaios, indico procurar por aqui nas resenhas os apontamentos sempre precisos do Jota.
No curto La Maison Volpé, por exemplo, Natalia pincela seu olhar italiano sobre a cozinha britânica. Divertido e anacrônico - mas com um fundo de verdade que vai durar a eternidade -, o texto brinca com a questão do estrangeiro em outra cultura, sobre essa falta de pertencimento a um lugar que pode vir, como ela mostra muito bem, do nosso paladar. Já em Ele e eu, a escritora tenta se distanciar de si mesma para mostrar as diferenças e preferências de um casal italiano da década de 1960. Ao retratar Gabriele Baldini, seu segundo marido, sem nomeá-lo, Natalia pincela o machismo à italiana e faz ecoar as atitudes de personagens masculinos de uma certa tetralogia napolitana. No terceiro destaque, O meu ofício, Natalia reflete com brilhantismo sobre o papel de escrever. Altamente confessional, o texto aborda com sobriedade a importância de buscar ser autêntico e avisa que não devemos ludibriar com palavras que não existem em nós sempre que pensarmos no ato da escrita. Por último, o excelente Silêncio traz a necessidade de contemplar essa qualidade cada vez mais escassa em nosso mundo globalizado e de velocidade desenfreada. A ausência de som, refletirá Natalia, é a conservação de um pecado comum, e portanto é uma qualidade que nos aproxima.
Para uma apresentação, o livro é bom. Nenhum dos onze textos são descartáveis, longe disso. A maioria deles apenas não conversou comigo e isso pode acontecer com qualquer leitor. Mas não vou dizer que a Natalia entrou com preferência na minha lista de leituras. Quem sabe em outro momento, quando o tempo não parecer escasso? Um dia volto a ler ela.