Recebi da editora Janela Amarela um exemplar de ‘O Funil do Diabo”, última criação literária da escritora carioca Julia Lopes de Almeida. Esta editora vem fazendo um trabalho muito bonito de reedição de obras esquecidas da literatura brasileira. E quanto à autora, dela eu só havia lido “A Falência”, de que gostei muitíssimo.
Julia foi uma escritora muito prolífica, defensora da educação feminina, do divórcio e da abolição do regime escravocrata, temas que abordou em seus livros. Ela foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, mas não foi incluída como imortal por ser mulher.
“O Funil do Diabo” é um romance de mistério com fundo psicológico. Juliana, uma jovem mulher casada, começa a nutrir uma série de dúvidas e desconfianças em relação aos familiares que residem em sua casa, após perceber um furto em seu cofre doméstico. A protagonista vive uma espécie de tormento espiritual ao se ver duvidando de pessoas próximas e queridas. Há outras suspeitas não verbalizadas que incrementam o mistério e fazem deste um romance de leitura de pessoas: observamos diferentes personagens analisando uns aos outros enquanto buscam explicações plausíveis.
Uma das coisas que me fascina nos livros de Julia é a descrição de paisagens cariocas. Se em “A Falência” víamos os armazéns de café na zona portuária, no “Funil” são citados os bairros Cosme Velho, Laranjeiras e as cidades Niterói e Nova Iguaçu, embora o foco esteja na chácara em que vive a família, envolta em um belo laranjal.
Outra coisa que me agrada no trabalho da autora é que, por trás das tramas principais, sempre há um comentário sociopolítico. No “Funil”, Julia trata das teorias psicológicas em voga, da obsessão com a riqueza em um contexto de industrialização, e de um certo desequilíbrio na relação entre esposos e esposas.
Esse pequeno romance, quase uma novela, foi deliciosamente devorado, e tenho descoberto em Julia Lopes de Almeida não só uma escritora de descrições e caracterizações originais e elegantes, mas uma excelente cronista de seu tempo.
Para melhorar, a romancista arremata o mistério, em “O Funil do Diabo” com a concisão que só uma mão experiente pode realizar: é precisa na articulação do que é dito, calado e sugerido; sustenta muito bem o subtendido. Conta conosco, não nos subestima, produzindo uma narrativa inteligente.
Que sorte estarmos vivenciando o resgate de sua obra!