Uma aventura envolvente e visceral
Vou iniciar esta resenha dizendo que foi muito bom ler este livro após ter lido No Coração do Mar. Assim, pude identificar paralelos entre os eventos reais vividos pelos tripulantes sobreviventes do naufrágio do Essex em 1820 e a história desenvolvida por Poe sobre Pym, Dirk Peters, Augustus e Richard Parker a bordo do baleeiro Grampus, publicada em 1838. A história começa como se fosse um relato verídico narrado em primeira pessoa e intercalado com anotações semelhantes a um diário de viagens. Pym descreve seu embarque clandestino no navio com a ajuda de seu melhor amigo Augustus (filho do capitão do baleeiro), descreve também o motim a bordo, a tempestade monstruosa que enfrentaram, o naufrágio, a fome, a sede, os tubarões, o canibalismo, o encontro com um navio fantasma à deriva, o resgate por outro baleeiro (o Penguin) e suas viagens em busca de alcançar a Antártida. A narrativa me manteve envolvida do início ao fim, apesar de alguns elementos que me fizeram revirar os olhos e tiraram um pouco da imersão. Por exemplo, a ausência de um tanque de ferro no Grampus para armazenar o óleo das baleias que supostamente iriam caçar, alguns desmaios pouco convincentes do protagonista, o clichê de perder a voz nos momentos mais inoportunos e o surgimento repentino do cachorro do protagonista a bordo do navio, que é retirado da história sem qualquer explicação (simplesmente para de ser mencionado após o naufrágio, possivelmente por esquecimento do autor). Além disso, o motim apresenta um aspecto totalmente inverossímil para mim: por que os amotinados matariam 22 homens e deixariam os cinco restantes, incluindo o capitão e seu filho, vivos? Afora essas pequenas falhas, a história é extremamente envolvente. O narrador protagonista é cativante, assim como seus companheiros de aventura. Edgar Allan Poe possui uma escrita fluída e envolvente, e, na obra em prosa mais extensa publicada por ele, demonstra uma habilidade impressionante e convincente em imaginar uma jornada de muitos meses no mar com notável nitidez. A história tem um ótimo ritmo, mas o final deixa um gostinho de incompletude. Sinceramente, eu adoraria que a narrativa continuasse. O relato de Pym é uma mistura de livro de memórias com aventura marítima, diário de viagens com um toque de ficção sobrenatural. E ainda há "verbetes" inseridos ao longo da história e, principalmente, durante a segunda metade, imagino eu, para dar credibilidade à afirmação do autor de que esse era um relato verossímil. Li que o livro foi muito criticado por suas passagens de extrema violência e imprecisões náuticas, e para uma história que se vendia como uma sóbria verdade, isso não foi muito bom. Entretanto, o livro foi lido por Júlio Verne, que gostou tanto que escreveu uma sequência em 1897 com o nome de Mistério Antártico. Só assim Poe ganhou o reconhecimento merecido por seu livro. Este livro foi uma grata surpresa para mim. Adorei encontrar uma ficção marítima que se encaixasse tão bem com os últimos livros do gênero que li. O ritmo e a experiência visceral em determinados momentos da narrativa me conquistaram e tornaram A Narrativa de Arthur Gordon Pym um ótima leitura de aventura. Recomendo a todos que curtem aventuras marítimas.







