Rami, casada há vinte anos com Tony, um alto funcionário da polícia, de quem tem vários filhos, descobre que o partilha com várias mulheres, com as quais ele constituiu outras famílias. O seu casamento, de «papel passado» e aliança no dedo, resume-se afinal a um irónico drama de que ela é apenas uma das personagens. Numa procura febril, Rami obriga-se a conhecer «as outras». O seu marido é um polígamo! Na via dolorosa que então começa, séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e as diferenças abissais de cultura entre o norte e o sul da terra que é sua, esmagam-na. E só a sabedoria infinita que o sofrimento provoca lhe vai apontando o rumo num labirinto de emoções, de revelações, de contradições e perigosas ambiguidades. Poligamia e monogamia, que significado assumem? Cultura, institucionalização, hipocrisia, comodismo, convenção ou a condição natural de se ser humano, no quadro da inteligência e dos afetos? Paulina Chiziane estende-nos o fio de Ariadne e guia-nos com o desassombro, a perícia e a verdade de quem conhece o direito e o avesso da aventura de viver a vida. Niketche, dança de amor e erotismo, é um espelho em que nos vemos e revemos, mas no qual, seguramente, só alguns de nós admitirão refletir-se.
Niketche - Uma história de poligamia
Paulina Chiziane
A arte de contar histórias e costurar almas
A leitura de Niketche - uma história de poligamia não é obrigatória. É essencial. Eu gosto da literatura engajada, que gera reflexão. Esse tipo de literatura é diferente da panfletária ou de entretenimento, pois ela tem uma função nobre e muito importante. E por isso concordo com o escritor gaúcho Altair Martins, em entrevista ao Paiol Literário: a literatura é uma forma de intervenção e deve mostrar aquilo que não é mostrado, pois ela tem o objetivo de corroer a pretensa realidade. Este livro da Paulina Chiziane é um exemplo maiúsculo dessa árdua missão. Para entender a grandiosidade da leitura de Niketche - uma história de poligamia se faz necessária uma breve biografia de Paulina Chiziane, pois ela é uma figura inspiradora para o seu país e para as mulheres do mundo. A autora cresceu num subúrbio de Maputo em um seio familiar cristão, recebendo instrução formal em instituições dessa ordem religiosa e, portanto, aprendendo português, a língua do colonizador. Durante sua juventude, participou ativamente das atividades da Frente de Libertação de Moçambique, a FRELIMO, partido do qual se desliga posteriormente para se dedicar à literatura. E aí temos mais um feito fantástico: Paulina Chiziane é a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique. E sabem quando isso aconteceu? Inacreditavelmente apenas em 1990!! O primeiro romance dela chama-se Balada de amor ao vento e não foi editado no Brasil, de acordo com a minha breve pesquisa. Apesar de publicar esparsamente contos desde 1984, o reconhecimento nacional e internacional acontece justamente com a chegada de Niketche - uma história de poligamia, esta extraordinária peça de ficção que veio ao mundo em 2002. E por onde começar a falar de um livro tão potente como este? A tarefa é difícil, mas tentarei. Em Niketche os leitores vão ser apresentados à conturbada vida de Rami. Moçambicana do Sul do país, Rami percebe-se abandonada pelo marido, Tony. E pior: percebe que a razão deste abandono está diluída em quatro mulheres. No nível mais básico, a história de Rami parece uma narrativa de realismo mágico que se perdeu em outro continente colonizado que não o americano. Mas o livro de Paulina é muito mais do que uma simples discussão sobre poligamia e traição. Ao narrar a singular história de Rami, a autora educa seus leitores sobre as questões mais prementes do feminismo sem ser doutrinadora. Com uma prosa poética deslizante diante dos olhos, descobrimos em Niketche o poder da possibilidade. No livro, através das pontuações precisas da narradora diante das diversas questões apresentadas aos leitores, Paulina discute cultura, colonização, machismo, traição, maternidade, paternidade, sororidade e relações de gênero e poder, além da liberdade e da emancipação feminina. Conhecer Moçambique pelas palavras de Paulina é conhecer uma África profunda e ancestral que ainda sofre com as consequências da chegada do homem branco à região. É estar diante de uma costura de almas que desnuda o sofrimento de uma sociedade. Em entrevistas e declarações, Paulina Chiziane gosta de afirmar que é uma simples contadora de histórias. O que ela não revela em sua voz suave nas suas sempre humildes intervenções, entretanto, é que esta é uma função transformadora. Uma história, quando tem o propósito de refletir sobre algo, apresenta possibilidades antes desconhecidas dos leitores devido à invisibilidade da pequenez do cotidiano. E quando isso acontece, meus caros, é lindo e inesquecível, como este livro.
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