A gente se acostumou a ouvir, assistir ou ler cenas do nosso sistema penitenciário sempre com o julgamento de cada um, em sua maioria a população acredita que em presídios vivem a escória da sociedade, pessoa que merecem serem mal tratadas e porque não mortas? Afinal fizeram o mesmo com inocentes, certo?
Não sou uma exímia defensora dos direitos humanos, sou do time dos revoltados que não sente pena quando um presídio incendeia mas se é uma escola chora toda vez que passa a reportagem.
Nos acostumamos com o mundo do "toma lá, dá cá", e cremos que em presídios só viram assassinos que tem sorte de não ter pena de morte do Brasil. Sim, lá vivem muitos deles mas também há dependents químicos, ou como a sociedade utiliza na linguagem popular, nossos drogados. Digo "nossos" porque é muito difícil que cada um de vocês não tenha um amigo, um parente, ou às vezes até você mesmo que tenham afundado no vício, e não digo somente de drogas ilícitas não, mas de outras como o alcóol que acabam com famílias há anos.
Dada essa imensa introdução, vamos ao mundo que fui inserida no livro, Pedro foi criado no bairro mais caro da zona norte, a Tijuca, sempre acostumado a ter tudo que queria, mimado pelos pais e principalmente pelos avós conta que desde cedo gostava de andar com o pessoal mais velho que matava aula e também fumava maconha.
Isso seria somente o início de uma história que através do depoimento dado à jornalista Fernanda Portugal, tem ares pesados, não há espaço para romantismo, nas 208 páginas é vida real, é vermos um jovem inteligente se meter cada vez mais no uso de substâncias que ele acreditava ter controle, é vermos sua família sofrendo, é percebemos que a sorte que ele acha que teve ao encontrar quem achou que fosse a mulher de sua vida - e que ele chama de Bertha no livro- na verdade foi um imenso azar, a mulher que não veio a somar e sim a subtrair dele, há sempre quem nos coloque para cima e há os que nos ajudam ao caminho que já traçaríamos sozinhos mas parecem dar um empurrão para irmos mais rápido e é essa a sensação que temos quando ele conta seu relacionamento com ela - que também fazia isso das drogas- e do que irá acontecer para a polícia entrar na casa de seus pais e prendê-lo.
Dali para frente teremos relatos ainda mais fortes, ainda que os da fase acima impressionem pela falta de controle com seu vício que o rapaz já apresentava.
Os episódios na cadeia, os relatos sobre os abusos dos policiais, dos agentes...a sensação de que já sabíamos mas agora contados por alguém tão parecido com a vida que levamos, com os amigos que temos parece tão ou mais impressionante.
Não era só comida ruim, era não ser tratado como humano. E admito aqui que para alguns casos citados por ele de porque alguns de seus companheiros de cela foram presos, também torci para que sofressem como suas vítimas, mas espero de verdade que vocês leiam e tirem suas conclusões.
Propina, maus tratos e uma sensação de que a vida nunca mais seria a mesma são coisas que Pedro descreve bem nos 500 dias que passou preso.
Há toda uma questão de como nossos presos são tratados, há todo um debate interno no leitor de que matar aquele criminoso pode ser mais fácil do que mandá-lo para um local daqueles.
Gostei muito de entre um capítulo e outro a jornalista nos inserir ainda mais no contexto informando sobre cada crime cometido dos prisioneiros que tem algum contato ou dividem a cela com Pedro.
Choca, incomoda e ainda assim é necessário que mais relatos como esse nos façam abrir os olhos, tanto para o vício sem controle quanto para o que é ser um preso no Brasil.