Elogiemos os homens ilustres (Coleção Jornalismo Literário) -

    James Rufus Agee, Walker Evans

    Companhia das Letras
    2009
    520 páginas
    17h 20m
    ISBN-13: 9788535915648
    Português Brasileiro

    Para produzir uma grande reportagem para a revista Fortune, o escritor e jornalista James Agee e o fotógrafo Walker Evans aprofundaram-se no sul dos Estados Unidos, em 1936, com o objetivo de retratar os efeitos da Grande Depressão que assolava o país. Durante quatro semanas, conviveram com três famílias de meeiros pobres do Alabama, numa relação tão próxima que chegaram a dormir na choupana de uma delas e a flertar com uma garota de outra família. O resultado dessa experiência extrapolou largamente os limites do que era conhecido como boa reportagem, e a matéria nunca chegou a ser publicada na imprensa. Ao longo dos anos seguintes, Agee reformulou o texto e o deixou ainda mais pessoal e refinado. Publicado em livro, em 1941, a aventura de Agee e Evans tornou-se desde então referência obrigatória para os estudos de jornalismo, literatura e antropologia. Ao mesmo tempo retrato minucioso - a ponto de dedicar várias páginas à descrição de um único aposento de casebre rural - e reflexão audaz sobre os limites da observação e da representação, já que Agee reflete de maneira pungente acerca do encontro entre duas realidades tão diversas - a dos dois "invasores" urbanos e cultos e a dos iletrados roceiros -, Elogiemos os homens ilustres é hoje reconhecido universalmente como obra de grande densidade literária e humana. Em seu realismo brutal e ao mesmo tempo poético, as 61 fotos em preto e branco de Evans que abrem o livro como um filme mudo, sem legendas, traduzem, comentam e amplificam o impacto do texto. Com uma franqueza sem efeitos, elas captam a dor e a desesperança da paisagem humana. Considerado o documento mais completo e corajoso da Grande Depressão, época em que os poderosos Estados Unidos viveram seu dia de Terceiro Mundo, este livro singular ultrapassa em muito o quadro histórico e social que o inspirou e permanece hoje, sete décadas depois de realizado, como uma impressionante tentativa de conhecer e compreender a miséria do "outro".

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    Vinícius Calheiros27/04/2026Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma reportagem que une diferentes sentidos visuais e cognitivos à uma aula prática de humanismo

    A edição que li de "Elogiemos os Homens Ilustres" publicado no Brasil pela Companhia das Letras, não é apenas um clássico do jornalismo literário, é uma experiência inenarrável que encontrei por acaso em um dia chuvoso na biblioteca da UFAL. Através de uma escrita petrolífera e descrições cinematográficas, James Agee e o fotógrafo Walker Evans cortam o cordão umbilical do jornalismo tradicional para dar voz aos esquecidos do Alabama durante o crash da bolsa de 1929. Enquanto o mundo financeiro desmoronava, Agee mergulhava na humanidade primordial de famílias que sobreviviam com quase nada, transformando casas frágeis como flocos de neve em verdadeiros templos de dignidade. Diferente da secura de Graciliano Ramos em Vidas Secas, que por vezes rasga a identidade de seus personagens, Agee entrega camadas profundas e viscerais, provando que as relações humanas sobrepõem-se ao ouro. Ao apropriar-se de um título bíblico para exaltar os invisíveis, a obra nos ensina que, mesmo diante da impotência e da ignorância, existe um espaço sagrado para os que praticam o bem, até mesmo para nós, os pecadores.

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