De autoria de Machado de Assis, nosso maior escritor, “Dom Casmurro” é um dos grandes clássicos da literatura brasileira. Frequentemente escolhido como leitura obrigatória nos vestibulares, é praticamente impossível ultrapassar o ensino médio sem conhecê-lo.
Sua história relata as memórias pouco confiáveis de um advogado cinquentão, Bento Santiago, que apresenta bons motivos para crer que foi traído pela esposa Capitolina ou Capitu com o melhor amigo, o comerciante Ezequiel Escobar. Aliás, até a paternidade do único filho ele coloca em dúvida.
Tendo como cenário o Rio de Janeiro durante o Segundo Império, um dos temas abordados no romance é a moral da época, contudo também centralizam a atenção a ambiguidade de Capitu, o ciúme e, sobretudo, o caráter de Bentinho que já mereceu até estudos psicanalíticos. Aliás, é assídua a menção da rica intertextualidade do texto que vai de Schopenhauer a Goethe, merecendo destaque a tragédia “Otelo, o Mouro de Veneza”, de Shakespeare que é três vezes citada ao longo do texto, respectivamente nos capítulos LXII, LXXII e CXXXV.
De acordo com John Gledson, um dos mais reputados estudiosos da obra machadiana, “Dom Casmurro” é um “romance realista voltado para a análise psicológica que critica ironicamente a elite carioca a partir do comportamento de determinadas personagens”. Exibindo traços românticos, como a fixação pelo olhar de Capitu, o professor de literatura Ian Watt também o considera próximo do impressionismo, ao recriar o passado através da memória de Bentinho. No entanto, alguns críticos contemporâneos, como Roberto Schwarz, afirmam que se trata da “primeira obra modernista brasileira, graças aos capítulos curtos, a estrutura fragmentária não-linear, o gosto pelo elíptico e alusivo, a postura metalinguística de quem escreve e se vê escrevendo, as intromissões na narrativa e a possibilidade de várias interpretações”.
Quanto ao texto, o leitor pode encará-lo como um romance policial, investigando cada ação e desconfiando das declarações do narrador tal qual um detetive, a fim de crer ou não no adultério, pois são inúmeras as incongruências, atitudes incompreensíveis e enigmas. A bem da verdade, “Dom Casmurro” permite distintos entendimentos e cabe a cada um tirar suas conclusões quanto as personagens e o enredo. Por sinal, este é um aspecto recorrente na obra machadiana, todavia nem sempre o romance foi encarado desta forma.
Durante décadas, houve certo consenso a respeito da infidelidade de Capitu, mas a ascensão do feminismo favoreceu um novo olhar para o livro e a brasilianista Helen Caldwell foi quem primeiro colocou Bentinho publicamente no banco dos réus. Em “The Brazilian Othello of Machado de Assis”, lançado em 196O, ela afirma que Capitu jamais o traiu, foi vítima de um marido tresloucado que induz o leitor a crer em suas palavras que não condizem com a verdade.
Vinte e quatro anos depois, foi a vez de “The Deceptive Realism of Machado de Assis: A Dissenting Interpretation of Dom Casmurro” trazer outro entendimento. No livro, de autoria de John Gledson, Bentinho não é um novo Otelo que por ciúme destrói e difama a amada. “Mimado pela mãe, ele faz parte de uma família abastada e conservadora, logo a liberdade de opinião de uma mocinha moderna, filha de um vizinho pobre, prova ser intolerável. Neste sentido, os ciúmes condensam uma problemática social mais ampla, historicamente específica, e funcionam como convulsões de uma sociedade patriarcal em crise.”
Quando o assunto parecia esgotado, uma matéria de Millôr Fernandes para a revista “Veja”, publicada em 26/01/2005, revelou uma leitura mais picante além de polêmica, causando até indignação por parte dos leitores. O escritor defende a ideia que tanto Capitu quanto Bentinho foram amantes de Escobar, inclusive, cita trechos do romance que indicariam a paixão do narrador pelo amigo.
Segundo o historiador Marc Bloch: “o passado muda de acordo com o presente que o lê?”. Em pouco mais de um século, “Dom Casmurro” comprovou esta máxima, ao abarcar novas leituras conforme a sociedade foi se transformando, notadamente em relação a sexualidade e a condição feminina. Enfim, Capitu traiu, não traiu ou foi traída, qual é sua opinião?”