Eu li Lisbela e o Prisioneiro em um único fôlego. E o pensamento que me ocorreu no final foi: que peça irônica e completamente sedutora! Lins foi capaz de conduzir uma narrativa tão questionadora, envolvente e lúcida que conseguiu a façanha de me fazer descobrir que adoro essa história em todas as suas versões.
A peça supera um pouco a adaptação cinematográfica, em minha opinião, é claro, até porque as duas partem de intenções muito diferentes. O filme aposta no encantamento, no humor leve e no romance idealizado; já o texto de Osman Lins me pareceu ter sido construído em cima de uma espécie de ironia pura, que guia e questiona a narrativa ao mesmo tempo.
O que antes eu conhecia pelo filme como uma história leve, na peça me pareceu quase um jogo intelectual, que deixa evidentes as engrenagens e os exageros intencionais dos papéis encenados. E isso naturalmente tornou o livro mais rico e um pouco menos ingênuo emocionalmente do que o filme, para mim.
A meu ver, a adaptação abraça a ingenuidade: Guel Arraes quer que a gente se apaixone, torça pelo romance e se encante, mesmo quando percebemos que tudo aquilo é muito fantasioso, enquanto Lins tenta nos mostrar como a história foi construída.
Eu tenho uma longa relação com a adaptação; assisti a ela inúmeras vezes. Assim como aconteceu com O Auto da Compadecida, decorei as falas e consigo citar cena por cena. Acho que isso possibilitou que eu conseguisse fazer essa distinção entre o contraste do encantamento que o filme traz e a lucidez irônica do texto original.
Dito isso, estou fascinada em conhecer a obra que deu origem a um dos filmes brasileiros que eu mais amo assistir, principalmente quando busco revisitar um romance imperfeito, que me provoca ótimas risadas e que está cheio de personagens carismáticos.