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    Aos outros só atiro o meu corpo -

    Maria Isabel Iorio

    Urutau
    2019
    156 páginas
    5h 12m
    ISBN-13: 9788571051201
    Português Brasileiro
    4.4
    30 avaliações
    Leram52Lendo2Querem51Relendo0Abandonos0Resenhas1
    Favoritos9Desejados51Avaliaram30

    Existe literatura feminina? Essa pergunta nos é feita sempre a nós, poetas-mulheres, e de certa forma ela nos persegue. Ainda que gênero seja uma invenção, a divisão sexual do trabalho e os papeis sociais impostos às pessoas que se autoidentificam como mulheres* é muito real e esses fatores influenciam nossa escrita, óbvio, porque influencia a nossa vida. Assim sendo, é claro que existe uma literatura feminina, por mais raiva que eu sinta em aceitar. Só que esse aspecto, que por séculos foi limitação, vira elemento emancipador, a partir do momento em que nos acotovelamos para dar a nossa versão dos fatos: se é nesse mundo, e não em outro, que vivemos, e se as coisas são assim, e se há coisas que só um corpo de mulher sabe, então é disso, meu amor, desse corpo nesse mundo, de que falaremos. Nesse sentido, a poesia de Maria Isabel Iorio vem como um coquetel molotov atirado por alguém que está sozinho, mas sozinho está no meio da multidão, dentro desse protesto infinito que é ser mulher, e que é ser mulher brasileira desde 2013. “Aos outros só atiro meu corpo”, que começa com a palavra chupar e termina com a palavra falar, é um livro sobre a solidão que historicamente nos persegue em todas as nossas facetas – poetas, mulheres, feministas, esquerdistas. Como diz a própria autora, existem ofícios, hábitos e acontecimentos que só podem ser feitos quando estamos sozinhos – “cortar as unhas depois do banho”, “lembrar escovar os dentes de trás”. Ser preso político. Morrer. Morrer trabalhando. Morrer de desgosto, desistir. Morrer não em outro, mas neste mundo – o de Brumadinho, de Suzano, o de Damares, onde podemos contar com tão pouco, onde nem mesmo a dor é companhia certa, porque “parece que a dor também se atrasa”. Mas esse é o mesmo mundo onde nossos dedos tremem quando adentram o corpo que amamos, onde “qualquer boca é metade de um beijo”. O livro de Maria Isabel Iorio não vai te afagar, talvez porque seja 2019, talvez porque ela confie que nós, seus leitores, precisamos menos de afago e mais de sustos. De menos aviso de gatilho e de mais coragem. Eu não sei o que Bel queria com esse livro, mas sei que ele está situado, pensando em nós e existindo entre nós, no Brasil 2019. É esse seu maior feito.

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    Julia Ogashawara picture
    Julia Ogashawara13/08/2022Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    "seria legal se a gente conseguisse chorar como um gesto público as notícias diriam hoje 02 pessoas choraram juntas se acertando com os próprios olhos"

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    Maria Isabel Iorio profile picture

    Maria Isabel Iorio

    nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Formada em Letras pela PUC-Rio, é poeta e artista visual. Lançou, em 2016, Em que pensaria quando estivesse fugindo (Editora Urutau), participa com poemas na antologia Tente entender o que tento te dizer (Bazar do Tempo), Alto-mar (7Letras), Explosão Feminista (Companhia das Letras), Que o dedo atravesse a cidade, que o dedo perfure os matadouros (coletivo Palavra Sapata), São Nossas As Notícias Que Daremos (Movimento Respeita!) e CAVAR UM BURACO NÃO VER O BURACO (publicação independente com a pesquisa da peça que escreveu e dirigiu). É coidealizadora/fundadora do Movimento Respeita! – coalizão de poetas, coorganiza o Les/Bi/Trans/a Slam, para pessoas LBT. Atua como provocadora, curadora, dramaturga, performer, diretora, produtora e colaboradora de práticas artísticas e políticas. Pesquisa a água na cidade. Tem 1 grau de miopia.

    9 Livros
    0 Seguidor
    Rio de Janeiro, Brasil

    Maria Isabel Iorio