Em seu primeiro romance para adultos, Monteiro Lobato aborda temas polêmicos como a segregação entre brancos e negros e a guerra dos sexos. Ainda prevê a futura hegemonia asiática em uma época em que a China, o gigante industrial do terceiro milênio não passava de um país quase feudal e totalmente dilacerado. Neste livro também aparece o Teatro Onírico, que fixa os sonhos na tela de cinema, desmistificando as teorias freudianas ao transformar os fluxos do inconsciente em entretenimento de massa. Ele intuiu também os experimentos científicos semelhantes aos clones atuais, em que seres humanos criados pela Corporação Psíquica de Detroit desdobravam-se, multiplicando os cinco sentidos. Após o período em que viveu nos EUA, Monteiro Lobato afirmou que a América retratada neste livro estava de acordo com o que encontrara.
O presidente negro -
Monteiro Lobato
Mais machista... talvez. Mas nunca, nada mais racista.
Creio que li O Sítio do Pica-Pau Amarelo quando criança e recentemente me deparei com um artigo que apontava a obra literária juvenil de Monteiro Lobato como racista. Assim como eu, não acredito que outros jovens, independente da época em que leram as aventuras de Emilia, Narizinho, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta e Tia Nastácia, tenham captado qualquer nuance de racismo. Para mim, isso pareceu coisa de adulto metido a crítico literário. Resolvi então ler "O Presidente Negro", para ver se, na obra adulta do escritor, ele era mais explícito com respeito a esse tão delicado tema. Para começar, em termos técnicos literários, a obra é fraca, pois Lobato infringe uma das mais importantes e básicas regras da escrita de ficção: "show, don't tell" ou "mostre, não conte". A história toda é contada por Ayrton Lobo e, dentro de sua narrativa, a história do ano 2228 é contada por Miss Jane. Não há ação, tudo é contado. A falta de verossimilhança é outro sério problema da obra. Isso é evidenciado pelo fato de que Ayrton é, nas palavras do doutor Benson, "um homem comum, de educação mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza (p. 37)", e em suas próprias palavras um homem de "estudos ligeiros, ginasiais apenas (p. 37) ... [que não compreende] muito bem, lento que [é] de espírito (p. 39)". No entanto, ele continuamente cita Shakespeare, a mitologia, filósofos, e é profundo conhecedor da história mundial; tudo utilizando-se de um vocabulário extremamente rebuscado que permeia a obra. Cadê a lógica? Quanto ao tema "racismo". TÁ LOCO!!! Racista é pouco! Do jeito que o eugenismo é enaltecido, me admiro que Hitler não tenha usado a obra como "manual" para a eugenia que ele tentou implementar. Inicialmente, é uma história até que interessante com o doutor Benson, sua máquina do tempo (provavelmente inspirado em H.G.Wells) e sua filha Miss Jane. Porém, quando Jane começa a contar a história sobre os Estados Unidos do ano 2228 e o Choque das Raças (título original da obra), tudo empeça a desandar. Logo de início ela propõe que a mistura das raças, "nossa solução [a do Brasil de 1926 e de hoje] foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter." DÁ PRA ACREDITAR?!?! Negro = Selvagem. Branco = Caráter. Daí em diante, é um tal de o negro fazer tratamento para esbranquiçar a pele e alisar o cabelo, subentendendo-se que nem o negro gosta dele próprio. A história contada por Miss Jane não só contém intrigas raciais, mas também política, política entre os sexos, política entre as raças, traição entre todos, e por aí a fora. E, além de racista, Lobato é também extremamente machista, aludindo, em várias ocasiões, à instabilidade feminina (p. 154 "2+2 não era forçosamente igual a 4. Era igual ao que no momento conviesse.") e a sua submissão ao macho (p. 139 Evelyn Astor "Vejo bem claro agora nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, também reconheço que sem o concurso dele nada valeríamos no mundo"). É interessante observar que, no livro, a ideia de "autorização para reprodução" (pp. 158-159) e a futura conquista da Europa pelos "mongóis" (leia-se asiáticos, chineses até nisso o tom é preconceituoso, sendo que a palavra usada se parece com "mongoloides", palavra que, no Brasil, tem conotação de síndrome de downs), pressagiam as atuais leis de controle populacional chinesas, plenamente implementadas em 1979, e o atual poder econômico da China. Também interessante, é o presságio do trabalho sem deslocação, ou seja o "telecommuting", as pessoas não precisam sair de casa para trabalhar, tudo é feito através da telecomunicação. Talvez o único ponto alto da obra, suas únicas ideias louváveis são o fato de que em 2228 não existem mais moscas (p. 166 "Se ainda houvesse moscas no ano 2228 poder-se-ia ouvir alguma voar na sala.") e, principalmente, a crítica à corrupção, burocracia e "sistemas de parasitismo de outrora e de hoje" brasileiros na denúncia de um "devorismo orçamentário de certas repúblicas «nossas conhecidas», onde fazer parte do Estado é conquistar o direito à inação da piolheira vitalícia dormir, apodrecer na sonolência da burocracia que não espera, não deseja, não quer, não age suga apenas. (p. 117-118)" Em síntese, a obra é um veículo deturpado, um culto às ideias racistas, machistas e arrogantes de um Monteiro Lobato que, pelo jeito, deveria ter se limitado à literatura juvenil, arena na qual seus profundos preconceitos e intolerâncias são menos detectáveis. Uma avaliação de REGULAR, na realidade, é muito generosa!! É claro, com base no meu preconceito contra obras preconceituosas!!!
Estatísticas
Avaliações
3.1 / 1125- 5 estrelas17%
- 4 estrelas27%
- 3 estrelas27%
- 2 estrelas16%
- 1 estrelas12%









