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    O presidente negro -

    Monteiro Lobato

    Ed. UFFS
    2020
    205 páginas
    6h 50m
    ISBN-13: 9786586545180
    Português Brasileiro
    3.1
    1125 avaliações
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    Jairo Escudero28/03/2014Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Mais machista... talvez. Mas nunca, nada mais racista.

    Creio que li O Sítio do Pica-Pau Amarelo quando criança e recentemente me deparei com um artigo que apontava a obra literária juvenil de Monteiro Lobato como racista. Assim como eu, não acredito que outros jovens, independente da época em que leram as aventuras de Emilia, Narizinho, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta e Tia Nastácia, tenham captado qualquer nuance de racismo. Para mim, isso pareceu coisa de adulto metido a crítico literário. Resolvi então ler "O Presidente Negro", para ver se, na obra adulta do escritor, ele era mais explícito com respeito a esse tão delicado tema. Para começar, em termos técnicos literários, a obra é fraca, pois Lobato infringe uma das mais importantes e básicas regras da escrita de ficção: "show, don't tell" ou "mostre, não conte". A história toda é contada por Ayrton Lobo e, dentro de sua narrativa, a história do ano 2228 é contada por Miss Jane. Não há ação, tudo é contado. A falta de verossimilhança é outro sério problema da obra. Isso é evidenciado pelo fato de que Ayrton é, nas palavras do doutor Benson, "um homem comum, de educação mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza (p. 37)", e em suas próprias palavras um homem de "estudos ligeiros, ginasiais apenas (p. 37) ... [que não compreende] muito bem, lento que [é] de espírito (p. 39)". No entanto, ele continuamente cita Shakespeare, a mitologia, filósofos, e é profundo conhecedor da história mundial; tudo utilizando-se de um vocabulário extremamente rebuscado que permeia a obra. Cadê a lógica? Quanto ao tema "racismo". TÁ LOCO!!! Racista é pouco! Do jeito que o eugenismo é enaltecido, me admiro que Hitler não tenha usado a obra como "manual" para a eugenia que ele tentou implementar. Inicialmente, é uma história até que interessante com o doutor Benson, sua máquina do tempo (provavelmente inspirado em H.G.Wells) e sua filha Miss Jane. Porém, quando Jane começa a contar a história sobre os Estados Unidos do ano 2228 e o Choque das Raças (título original da obra), tudo empeça a desandar. Logo de início ela propõe que a mistura das raças, "nossa solução [a do Brasil de 1926 e de hoje] foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter." DÁ PRA ACREDITAR?!?! Negro = Selvagem. Branco = Caráter. Daí em diante, é um tal de o negro fazer tratamento para esbranquiçar a pele e alisar o cabelo, subentendendo-se que nem o negro gosta dele próprio. A história contada por Miss Jane não só contém intrigas raciais, mas também política, política entre os sexos, política entre as raças, traição entre todos, e por aí a fora. E, além de racista, Lobato é também extremamente machista, aludindo, em várias ocasiões, à instabilidade feminina (p. 154 "2+2 não era forçosamente igual a 4. Era igual ao que no momento conviesse.") e a sua submissão ao macho (p. 139 Evelyn Astor "Vejo bem claro agora nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, também reconheço que sem o concurso dele nada valeríamos no mundo"). É interessante observar que, no livro, a ideia de "autorização para reprodução" (pp. 158-159) e a futura conquista da Europa pelos "mongóis" (leia-se asiáticos, chineses até nisso o tom é preconceituoso, sendo que a palavra usada se parece com "mongoloides", palavra que, no Brasil, tem conotação de síndrome de downs), pressagiam as atuais leis de controle populacional chinesas, plenamente implementadas em 1979, e o atual poder econômico da China. Também interessante, é o presságio do trabalho sem deslocação, ou seja o "telecommuting", as pessoas não precisam sair de casa para trabalhar, tudo é feito através da telecomunicação. Talvez o único ponto alto da obra, suas únicas ideias louváveis são o fato de que em 2228 não existem mais moscas (p. 166 "Se ainda houvesse moscas no ano 2228 poder-se-ia ouvir alguma voar na sala.") e, principalmente, a crítica à corrupção, burocracia e "sistemas de parasitismo de outrora e de hoje" brasileiros na denúncia de um "devorismo orçamentário de certas repúblicas «nossas conhecidas», onde fazer parte do Estado é conquistar o direito à inação da piolheira vitalícia dormir, apodrecer na sonolência da burocracia que não espera, não deseja, não quer, não age suga apenas. (p. 117-118)" Em síntese, a obra é um veículo deturpado, um culto às ideias racistas, machistas e arrogantes de um Monteiro Lobato que, pelo jeito, deveria ter se limitado à literatura juvenil, arena na qual seus profundos preconceitos e intolerâncias são menos detectáveis. Uma avaliação de REGULAR, na realidade, é muito generosa!! É claro, com base no meu preconceito contra obras preconceituosas!!!

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    Monteiro Lobato profile picture

    Monteiro Lobato

    José Bento Renato Monteiro Lobato foi um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX. Foi um importante editor de livros inéditos e autor de importantes traduções. Seguido a seu precursor Figueiredo Pimentel ("Contos da Carochinha") da literatura infantil brasileira, ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo, bem como divertido, de sua obra de livros infantis, que constitui aproximadamente a metade da sua produção literária. A outra metade, consistindo de contos (geralmente sobre temas brasileiros), artigos, críticas, crônicas, prefácios, cartas, um livro sobre a importância do petróleo e do ferro, e um único romance, O Presidente Negro, o qual não alcançou a mesma popularidade que suas obras para crianças. Obra infantil: Coleção Sítio do Picapau Amarelo 1921 - O Saci 1922 - Fábulas 1927 - As aventuras de Hans Staden 1930 - Peter Pan 1931 - Reinações de Narizinho 1932 - Viagem ao céu 1933 - Caçadas de Pedrinho 1933 - História do mundo para as crianças 1934 - Emília no país da gramática 1935 - Aritmética da Emília 1935 - Geografia de Dona Benta 1935 - História das invenções 1936 - Dom Quixote das crianças 1936 - Memórias da Emília 1937 - Serões de Dona Benta 1937 - O poço do Visconde 1937 - Histórias de Tia Nastácia 1939 - O Picapau Amarelo 1939 - O minotauro 1941 - A reforma da natureza 1942 - A chave do tamanho 1944 - Os doze trabalhos de Hércules (dois volumes) 1947 - Histórias diversas Outros livros infantis (quase todos compilados no volume Reinações de Narizinho) 1920 - A menina do narizinho arrebitado 1921 - Fábulas de Narizinho 1921 - Narizinho arrebitado (incluído em Reinações de Narizinho) 1922 - O marquês de Rabicó (incluído em Reinações de Narizinho) 1924 - A caçada da onça 1924 - Jeca Tatuzinho 1924 - O noivado de Narizinho (incluído em Reinações de Narizinho, com o nome de O casamento de Narizinho) 1928 - Aventuras do príncipe (incluído em Reinações de Narizinho) 1928 - O Gato Félix (incluído em Reinações de Narizinho) 1928 - A cara de coruja (incluído em Reinações de Narizinho) 1929 - O irmão de Pinóquio (incluído em Reinações de Narizinho) 1929 - O circo de escavalinho (incluído em "Reinações de Narizinho, com o nome O circo de cavalinhos) 1930 - A pena de papagaio (incluído em Reinações de Narizinho) 1931 - O pó de pirlimpimpim (incluído em Reinações de Narizinho) 1933 - Novas reinações de Narizinho 1938 - O museu da Emília (peça de teatro, incluída no livro Histórias diversas) Livros para adultos: O Saci Pererê: resultado de um inquérito (1918) Urupês (1918) Problema vital (1918) Cidades mortas (1919) Ideias de Jeca Tatu (1919) Negrinha (1920) A onda verde (1921) O macaco que se fez homem (1923) Mundo da lua (1923) Contos escolhidos (1923) O garimpeiro do Rio das Garças (1924) O Presidente Negro/O choque (1926) Mr. Slang e o Brasil (1927) Ferro (1931) América (1932) Na antevéspera (1933) Contos leves (1935) O escândalo do petróleo (1936) Contos pesados (1940) O espanto das gentes (1941) Urupês, outros contos e coisas (1943) A barca de Gleyre (1944) Zé Brasil (1947) Prefácios e entrevistas (1947) Literatura do minarete (1948) Conferências, artigos e crônicas (1948) Cartas escolhidas (1948) Críticas e outras notas (1948) Cartas de amor (1948)

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