Notas de um filho nativo -

    James Baldwin

    Companhia das Letras
    2020
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788535933765
    Português Brasileiro

    A obra-prima de não ficção de um dos escritores mais brilhantes do século XX sobre raça e identidade. Na nota introdutória deste volume, James Baldwin, aos 31 anos, se dá conta do momento mais importante de sua formação, quando se viu obrigado a perceber que a linha do seu passado não levava à Europa, e sim à África. Foi então que ele se deparou com uma revelação chocante: Shakespeare, Bach e Rembrandt não eram criações “realmente minhas, não abrigavam minha história; seria inútil procurar nelas algum reflexo de mim. Eu era um intruso; aquele legado não era meu”. Publicada originalmente em 1955, esta reunião de ensaios escritos entre as décadas de 1940 e 1950 é a primeira obra de não ficção do autor de O quarto de Giovanni. O que mais impressiona nesses testemunhos ― narrados com inteligência, sensibilidade e estilo extraordinário ― é sua atualidade. Ao usar como matéria-prima sua própria experiência para refletir sobre o que representa ser um escritor negro e homossexual nos Estados Unidos, seu país de origem, e em Paris, cidade onde viveu por muitos anos, Baldwin oferece um poderoso e urgente depoimento sobre direitos civis. O volume inclui o prefácio à edição de 1984, assinado por Edward P. Jones, posfácios de Teju Cole e Paulo Roberto Pires e um alentado “sobre o autor”, por Marcio Macedo.

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    Flávia11/02/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A cor da identidade!

    Ao longo da década de 1960, o FBI acumulou cerca de quase dois mil documentos em uma investigação sobre uma das mentes mais celebradas da América: a do romancista, ensaísta, dramaturgo, poeta e crítico social estadunidense James Arthur Baldwin. Nascido no Harlem em 1924, aos 14 anos Baldwin começou a trabalhar como pregador, lugar onde se desenvolveu a sua voz como escritor, ao mesmo tempo em que seu conflito com a religião começava a crescer. Aos 24 anos, sentindo que já não encontrava mais o seu lugar em seu país onde o racismo e a homofobia tanto o oprimiam, Baldwin decide se mudar para Paris com uma bolsa de estudos para escritores. “Notas de um filho nativo”, publicado em 1955, é uma coletânea de dez ensaios que abordam as temáticas das questões raciais na América e na Europa, e é considerado um clássico do gênero autobiográfico, ocupando a 19ª posição na lista dos 100 melhores livros de não-ficção do século XX da “Modern Library”. A sua busca por tentar responder a rejeição familiar e social, e alcançar um senso de individualidade que tivesse coerência e benevolência, que é o fio condutor dos escritos que Baldwin escreveu ao longo da vida, é exatamente o que podemos encontrar nesta obra. E é importante ressaltar que nem mesmo o seu título foge de todo um corpo de significados. Unindo o título do último livro publicado pelo escritor que tanto o inspiraria, Henry James, “Note of a Son and Brother” com o romance lançado por Richard Wright em 1940, “Filho Nativo”, esta é uma obra que como analisaria Italo Calvino, "é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer". Dividindo os ensaios em três partes, na primeira parte nos deparamos como uma resenha crítica de Baldwin sobre dois grandes clássicos da literatura americana, além do filme “Carmem Jones”, onde o escritor discute o papel do artista negro na sociedade. O primeiro romance discutido é um dos livros mais vendidos nos Estados Unidos depois da Bíblia, “A Cabana do Pai Tomás” de Harriet Beecher Stowe, o qual ele critica duramente por ser excessivamente sentimentalista, e por ser “bem semelhante ao zelo daqueles missionários alabastrinos que vão à África para cobrir a nudez dos nativos e empurrá-los para os braços pálidos de Jesus”. Quanto ao “Filho Nativo” de Richard Wright, Baldwin é bem mais brando em suas opiniões, discorrendo sobre os acertos e as limitações da obra, que, assim como no filme “Carmen Jones”, traz à tona o estereótipo do negro promíscuo. Já a parte dois nos insere no cenário do Harlem, e podemos olhar a vida através dos olhos de Baldwin, além de compreender a sua relação com um pai pregador excessivamente duro com ele, cuja distância na relação deixou grandes marcas. A parte final do livro nos leva para a Europa, precisamente para a “Paris é uma festa” que um dia Hemingway nos apresentou, e que agora Baldwin nos revela não ser uma cidade tão mágica assim, onde para ele, o direito à festa lhe foi negado. Sua discussão sobre a identidade do africano da África e do africano Americano, que ele vai analisando ao mesmo tempo que nos fala sobre como “o parisiense não manifesta o menor interesse pessoal, a menor curiosidade a respeito da vida ou dos costumes de qualquer estrangeiro”, terminando com a imagem do negro em uma pequena aldeia de brancos na Suíça, é um deleite de beleza e sensibilidade que nos provoca a pensar na busca incessante por pertencimento de um povo que foi brutalmente forçado a deixar suas raízes para incorporar outras que apenas os rejeitam. Ler os ensaios de Baldwin nos provoca a ir além, e pensar em uma nova forma de viver as nossas diversas raças e cores compreendendo que não é apenas de dna que elas se compõem, mas que toda a sua identidade grita por uma oportunidade de ser como se é e com tudo o que se tem de forma única e absoluta.

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