Leitura 58 de 2020
Temporada de furacões [2017]
Fernanda Melchor (México,1982-)
Mundaréu, 2020, 216 p.
Comecei o romance lendo devagar e em pequenas doses, mas logo percebi que estava prejudicando a leitura. A cada retorno eu ficava meio perdido, muito devido à ausência de parágrafos e quebras no texto (vcs que reclamam do Saramago, esperem até ler isso aqui). Insatisfeito, reiniciei noutro regime de leitura, devorando cada capítulo em uma sentadae a experiência foi infinitamente melhor. As razões são muito simples: a forma encontrada por Fernanda Melchor para esta narrativa é, em si mesma, o anúncio da temporada de furacões do título: um texto-turbilhão, centrípeto, forte, violento e deformador da paisagem humana. Demanda fôlego e entrega.
Baseada na notícia real de um crime envolvendo um bruxo num vilarejo perto do porto de Veracruz, onde a autora morava na época, a narrativa reelabora os fatos, cria personagens e aprofunda as motivações dos envolvidos num movimento que só a literatura pode fazer: aglutinar experiência-realidade-invenção na entrega de uma história cuja eloquência nos explica mais do mundo do que o próprio mundo seria capaz de dizer. Em Temporada de furações, conhecemos o vilarejo de La Matosa, lugar-símbolo de muitos lugares (inclusive brasileiros) onde resiste uma dor pungente que se nega a se dissolver, herança da miséria e da negligência, mas também de uma cultura violadora dos corpos, sobretudo femininos.
A violenta equação que envolve narcotraficantes, abuso de entorpecentes, homofobia, transfobia e outras toxicidades domina a narrativa, que tem início com a descoberta do corpo mutilado da Bruxa, personagem ora estimada ora vilipendiada pelos moradores de La Matosa. Melchor propõe uma visão com as personagens que se relacionavam de alguma forma com a Bruxa ou com os envolvidos no crime, mas nunca dá voz de fato à vítima, transformando sua figura, dessa forma, em uma quase-neblina. O livro é um triunfo de atmosfera, feita basicamente de crueldade humana, desejos reprimidos e a expectativa por novos ventos que solapem o terror cotidiano para o qual temos nos tornado cada vez mais insensíveis.
1º envio do clube @tortillalivros !