Uma experiência literária hipnótica e devastadora. Nesta obra multipremiada de uma das vozes mais entusiasmantes da literatura sul-americana, o romance policial e a história de terror se encontram para traçar um retrato de um México sem lei nem esperança. A Bruxa está morta. Um grupo de crianças encontrou o seu corpo mutilado a flutuar num canal de irrigação. Esta descoberta macabra leva a polícia de La Matosa, um lugar perdido no México, a procurar os envolvidos no crime. Cada um contará a sua versão dos acontecimentos, abrindo as portas de um inferno de violência e abandono, onde as drogas, o sexo, a pobreza e o desespero convivem com a superstição e a mitologia, traçando o retrato assustador de um México sem lei nem esperança. Aclamado pela crítica internacional, que o compara a obras de Cormac McCarthy e de Roberto Bolaño, com ecos da melhor tradição da literatura sul-americana, de Gabriel García Márquez a Juan Rulfo, Temporada de Furacões é um romance originalíssimo, escrito no limite da oralidade, que subverte as convenções da crónica e do romance negro, revelando um lirismo inesperado.
Temporada de Furacões -
Fernanda Melchor
Leitura 58 de 2020 Temporada de furacões [2017] Fernanda Melchor (México,1982-) Mundaréu, 2020, 216 p. Comecei o romance lendo devagar e em pequenas doses, mas logo percebi que estava prejudicando a leitura. A cada retorno eu ficava meio perdido, muito devido à ausência de parágrafos e quebras no texto (vcs que reclamam do Saramago, esperem até ler isso aqui). Insatisfeito, reiniciei noutro regime de leitura, devorando cada capítulo em uma sentadae a experiência foi infinitamente melhor. As razões são muito simples: a forma encontrada por Fernanda Melchor para esta narrativa é, em si mesma, o anúncio da temporada de furacões do título: um texto-turbilhão, centrípeto, forte, violento e deformador da paisagem humana. Demanda fôlego e entrega. Baseada na notícia real de um crime envolvendo um bruxo num vilarejo perto do porto de Veracruz, onde a autora morava na época, a narrativa reelabora os fatos, cria personagens e aprofunda as motivações dos envolvidos num movimento que só a literatura pode fazer: aglutinar experiência-realidade-invenção na entrega de uma história cuja eloquência nos explica mais do mundo do que o próprio mundo seria capaz de dizer. Em Temporada de furações, conhecemos o vilarejo de La Matosa, lugar-símbolo de muitos lugares (inclusive brasileiros) onde resiste uma dor pungente que se nega a se dissolver, herança da miséria e da negligência, mas também de uma cultura violadora dos corpos, sobretudo femininos. A violenta equação que envolve narcotraficantes, abuso de entorpecentes, homofobia, transfobia e outras toxicidades domina a narrativa, que tem início com a descoberta do corpo mutilado da Bruxa, personagem ora estimada ora vilipendiada pelos moradores de La Matosa. Melchor propõe uma visão com as personagens que se relacionavam de alguma forma com a Bruxa ou com os envolvidos no crime, mas nunca dá voz de fato à vítima, transformando sua figura, dessa forma, em uma quase-neblina. O livro é um triunfo de atmosfera, feita basicamente de crueldade humana, desejos reprimidos e a expectativa por novos ventos que solapem o terror cotidiano para o qual temos nos tornado cada vez mais insensíveis. 1º envio do clube @tortillalivros !
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