Leitura 42 de 2021
Space invaders [2013]
Nona Fernández (Chile, 1971-)
Moinhos, 2021, 88 p.
Trad. Silvia Massimini Felix
Para Italo Calvino, o simbolismo de um objeto pode ser mais ou menos explícito, mas existe sempre. Numa narrativa um objeto é sempre um objeto mágico. Lembrei dessa passagem porque, lá nas minhas aulas da faculdade de letras, professoras e professores amiúde concordavam em um ponto: quanto mais breve uma obra literária, mais atenção leitores precisam dar a seus elementos. Space Invaders é um desses livros curtinhos cheios de objetos mágicos: uma prótese de mão, uma carta nunca entregue, um avental xadrez ou os marcianinhos pixelizados de um jogo do Atari, entre outros. Construída a partir de cenas, sonhos e memórias de um grupo de crianças que viveu a ditadura chilena na década de 1980, esta novela de Nona Fernández é um pequeno quebra-cabeças que forma uma imagem assombrosa das sequelas da repressão e do autoritarismo.
A ditadura de Pinochet (1979-1990) e o processo de transição que se seguiu (no qual vítimas foram identificadas, crimes comprovados, mas não houve divulgação imediata dos nomes dos agentes envolvidos no terrorismo de Estado) geram a fantasmagoria social representada em Space invaders. A certa altura, a novela parece sintetizar o que significa viver na fricção entre essa busca por verdade e memória sem direito à justiça: o tempo não é claro, confunde tudo, revolve os mortos, transforma-os num só, volta a separá-los, avança para trás, retrocede ao contrário, gira como um carrossel de parque de diversões [...] e nos enreda em funerais, marchas e detenções, sem nos dar nenhuma certeza de continuidade ou de fuga. Se estivemos lá ou não, já não está claro. Se participamos de tudo isso, tampouco.
Dividido em 1ª vida, 2ª vida, 3ª vida e Game over (será necessário explicar que antigamente os jogos não salvavam, de forma que se você perdesse todas as vidas precisava recomeçar do início?), o livro deixa em cada uma dessas partes uma parcela irrecuperável da infância de seus protagonistas. S.I. resgata literariamente o trauma coletivo chileno do sumidouro de memórias deste pesadelo do qual ainda precisamos despertar.