Livros como esses, voltados a contos escritos por mulheres de países pouco conhecidos, são bastante raros. Curiosamente, temos um também em português, o "Elas escrevem: Antologia de contos tchecos contemporâneos escritos por mulheres", e, felizmente, só há um único conto que aparece também nessa edição em espanhol, de modo que ler esse "Povídky" é uma nova e muito rica experiência.
Uma coisa que eu ainda não havia encontrado em nenhum livro tcheco que li este ano (e já foram mais de 50) é a abordagem da temática "cigana", isto é, do povo Rom, uma das minorias da República Tcheca. O conto de Tera Fabianová, "De cómo fui a la escuela", não apenas fala sobre os ciganos, mas foi escrito no idioma deles. E é uma história comovente, é uma narrativa autobiográfica da autora, mas funciona perfeitamente como conto, é muito bem construído e, sobretudo, escancara a miséria e o preconceito que acompanhavam os ciganos. É um tipo de texto não apenas rico literariamente, mas "necessário" para todos nós.
Há outros contos em que a questão dos ciganos se faz presente, como "Un helado de pistacho", de Anna Zonová, em que uma mulher cogita se não seria mais feliz se vivesse como eles, e "Lechucita", de Kvéta Legátová, outro dos melhores contos do livro, em que. na primeira parte, são contadas as desventuras de uma mulher de origem cigana (depois o conto muda de foco e aborda, também de forma comovente, os dramas de uma menina sem mãe). Existe ainda um curioso conto de terror escrito em idioma cigano por Erika Olahová.
A abordagem feminina em questões de relacionamento também é interessante, em contos como o de Alexandra Berková e Magdalena Platzová, mas os outros principais destaques para mim foram o existencialista "El camino del pecado menor", de Viola Fischerová (preocupado com o fato de os animais, em tese, não irem para o céu, um menino decide que também não vai para lá) e o psicológico "Espadas", de Vera Stiborová (três velhos jogadores de cartas, um deles um general que morre e outro então dá rédeas soltas ao seu remorso contra o falecido).
Cito ainda o cru "No le cuentes a mamá", de Svatava Antosová, que é o conto que também faz parte da antologia brasileira e que pode ser inclusive chocante em sua crueza, mas isso é um mérito e um resultado bem sucedido de uma experiência literária. E há ainda o freudiano "El bosque", de Katerina Rudcenková, que também me agradou.
Outros contos foram para mim destaques negativos, pois pouco ou nada consegui apreender deles: o de Katerina Sidonová e o de Alena Vostrá (que, apesar das minhas dificuldades com a leitura, ainda me parece rico na perspectiva feminina e feminista).
Vale conhecer essas tchecas, seja no português ou no espanhol.