De Umberto Eco, a reunião de quatro ensaios fundamentais sobre temas hoje ainda mais atuais e urgentes do que na época em que os textos foram escritos. Um guia essencial para enxergar o outro com novos olhos, e um manual conciso, visionário e único para compreender o cenário político e social deste momento delicado em que mal-entendidos e ideias retrógradas parecem prosperar. Eco explica as diferenças entre os fenômenos de “migração” e “imigração”, apontando suas características e consequências, além de explicitar as nuances entre fundamentalismo, integrismo, racismo e intolerância, tratando de seus perigos no mundo contemporâneo. O autor sustenta que “a compreensão mútua entre culturas diversas não significa avaliar a que o outro deve renunciar para se tornar igual, mas compreender mutuamente o que nos separa e aceitar essa diversidade”. E apresenta argumentos para demonstrar que “eliminar o racismo não significa demonstrar e se convencer de que os outros não são diferentes de nós, mas compreendê-los e aceitá-los em sua diversidade”.
Migração e intolerância (eBook) -
Umberto Eco
O Eco da Intolerância Europeia no Velho Mundo
“Não há racismo entre os ricos. Os ricos produziram, no máximo, as doutrinas do racismo; mas os pobres produzem sua prática, bem mais perigosa” Umberto Eco foi um dos maiores intelectuais italianos dos séculos XX e XXI: filósofo e escritor, acadêmico e tradutor, grande estudioso e bibliófilo. Eco foi também um dos mais atentos e lúcidos observadores das mudanças que estão ocorrendo na sociedade contemporânea. “Migração e Intolerância” é uma pequena coleção de quatro ensaios que testemunham a vitalidade e engenhosidade imorredoura de um pensamento que tratou de questões de migração, bem como de questões de intolerância, analisando esses fenômenos olhando-os em toda a sua profundidade e amplitude, de forma exata e, ao mesmo tempo, multidimensional, dialogando com muitos conhecimentos humanos dentro de si mesmos - da filosofia à história e à antropologia, da política e da ciência política à psicologia, da religião à etnologia etc. O primeiro texto é impressionantemente atual: aborda a questão principal sobre a qual a Itália e a Europa se veem confrontadas de uma forma cada vez mais dramática. Eco, ainda no século XX, já discutia sobre a migração nas fronteiras europeias quando o fenômeno da migração do sul para o norte do mundo ainda não tinha assumido as proporções que hoje testemunhamos. Ele previu que, no novo milênio, haveria um grande “cruzamento de culturas” na Europa, à semelhança do que aconteceu no século passado em Nova Iorque, ou, mesmo antes, em alguns países latino-americanos: um fenômeno que “nenhum racista, nenhum reacionário nostálgico” poderia evitar. Eco parte da tese de que o novo ou terceiro milênio trará algo diferente ao solo europeu - uma mistura de muitas culturas que não existiam em abundância até então, fazendo com que a Europa no século XXI seja mais parecida com alguns países latino-americanos, em termos de mistura de raças humanas, culturas, línguas. Ele analisa então dois termos e conceitos básicos - o conceito de imigração e o conceito de migração. A primeira ocorre quando um grupo de indivíduos se mudam de um país para outro. Este fenômeno, pode ser controlado politicamente e limitado ou incentivado dependendo das necessidades do país receptor. O fenômeno das migrações, porém, seria comparável aos eventos naturais: “elas acontecem e ninguém pode controlá-las”. As grandes migrações ao longo da história da humanidade, lembra o autor, alteraram a cultura e o patrimônio biológico da população que se encontrava nas terras para onde migraram os povos recém-chegados. Foi assim que surgiram novos reinos e novas culturas, por exemplo os "Romano-Bárbaros" ou "Romano-Germânicos". A migração europeia que ocorreu em direção ao continente americano, os recém-chegados, os brancos da Europa, não assumiram a cultura dos nativos americanos que lá encontraram, e sim fundaram uma nova civilização, à qual os próprios nativos se adaptaram - isto é - como Eco observa brevemente, sem amargura, secamente e factualmente - aqueles que sobreviveram as invasões dos colonos. Eco compreendia que o futuro da Europa seria inevitavelmente da ‘hibridização’ entre essas culturas. E que, transcorreria de maneira pacífica. Em vez disso, o que tem ocorrido cada vez mais no Velho Mundo é uma tentativa bárbara de se opor ao direito que todo ser humano deveria ter de procurar um futuro melhor. Em toda a Europa, o que vemos - a partir da leitura dos ensaios de Eco - é o ressurgimentos do racismo, que esperávamos que fossem relegados às prateleiras empoeiradas da história, úteis para serem estudados como produto de um passado que agora está distante e desaparecido. Estávamos errados, não tínhamos dado fé suficiente nas palavras de Primo Levi no seu emblemático livro ‘Os Afogados e os Sobreviventes’: “aconteceu uma vez, pode acontecer de novo”. O autor realça como a xenofobia atual resgata comportamentos antigos nestas novas formas de intolerância. Não são filhas da contemporaneidade, exceto na forma. Na base está uma história, mais ou menos longa, à qual podemos reconectar, para apresentar novamente o relato desses tristes episódios de racismo. Por exemplo, o anti-semitismo pseudocientífico, escreve Eco: “surge durante o século XIX e torna-se antropologia totalitária e a prática industrial do genocídio apenas no nosso século, mas não poderia ter nascido se não existisse há séculos, desde o tempos dos Padres da Igreja Católica, uma controvérsia anti-judaica, e entre as pessoas comuns um anti-semitismo prático que atravessou os séculos em todos os lugares onde havia um gueto”. Junto com esse pensamento, ele observou que esse confronto ou choque de culturas também poderia ter resultados sangrentos, onde uma sociedade intolerante de visões racistas ou fascistas não desapareceria, mas também se espalharia por todo o continente europeu. E o que sugere o autor para combater a intolerância? Na sua visão, a esperança é a educação antirracista (ele não usou esse termo, Skoobers, eu estou usando aqui porque o sentido é o mesmo do pensamento dele) das crianças no que ele chama de ‘primeira infância’, possibilitando que elas se tornem adultos tolerantes com o diferente. A essência da análise que Eco faz do conceito de intolerância reside na compreensão de que o pensamento, o intelecto, é impotente face à intolerância selvagem, dado que não está sujeito a interpretações ou argumentos racionais. Em outras palavras, os intelectuais que lutam contra a intolerância, são os perdedores nessa luta, ou seja, eles próprios são muitas vezes as suas primeiras vítimas “porque o pensamento é desarmado face à da pura animalidade sem sentido”. Quando a intolerância tem como base uma determinada doutrina, já é tarde demais para derrotá-la, ou seja, - “educar adultos que atiram uns nos outros por motivos étnicos e religiosos significa perder tempo”. Para o autor, e parece que não há razão para não concordar com ele, é necessário uma educação que trabalhe a tolerância com povos diferentes na primeira infância, antes que a intolerância esteja firmemente enraizada na mente desses futuros adultos. O tema do racismo é sempre um soco na boca do meu estômago porque é tudo verdade. Porque o racismo ainda existe, porque todos nós somos responsáveis por ele. Eco diz que existe dentro do europeu do fim do século XX um ressentimento contra quem lhe é diferente. O rancor que percorre hoje muitas das ruas europeias, das suas cidades é coisa velha, é um sentimento que se transformou em ódio e intolerância contra qualquer pessoa que lhes apareça (sem necessariamente ser) diferente deles. Considerei os temas abordados por Eco nesse livro extremamente atuais. As reflexões que os quatro ensaios nos trazem são imensuráveis. Evidentemente, é preciso ter alguns conhecimentos prévios dos pensamentos do autor sobre os temas aqui tratados. Do contrário, você poderá não compreender as reflexões levantadas por ele sobre esse eco da intolerância europeia dentro de seu próprio território. No mais: o jogador de futebol Vinni Jr é sim (atualmente) o melhor jogador do mundo e deveria ter sido dele aquela ‘Bola de Ouro’. Façam a conexão desse episódio com os ensaios de Eco para compreender a Europa contemporânea. 🇮🇹✊🏽❤️🔥✊🏾💔✊🏿❤️🩹⌛️
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