O título não poderia ser mais adequado: Achados e perdidos. Ao longo do romance, tudo se perde e se acha: pessoas, objetos, esperanças, objetivos... A exemplo do que fez em "O Silêncio da Chuva", também aqui Luiz Alfredo Garcia-Roza usa o recurso de cruzar crimes com intenções diferentes por indivíduos diferentes; ou seja, uma ocorrência policial que poderia ser simples, mas que se complica porque se mescla a subtramas e interesses vários.
Como sempre, Garcia-Roza consegue escapar das frases feitas e mantém um ritmo invejável na narrativa: esta não é abrupta, privilegiando a ação em prejuízo da criação de atmosfera ou da verossimilhança dos personagens, nem tampouco é recheada de pausas e caprichos estilísticos que podem "soar bem" para um certo tipo de crítico - mas que tornam a história policial arrastada e até chata. Não: ele mantém seu ritmo, seu 'timing' com perfeição. As páginas finais são devoradas em busca da solução e pela ansiedade que a leitura nos transmite, uma boa qualidade num romance policial.
A notar, apenas, duas coisas: algumas repetições de informação que parecem desnecessárias (uma falha na revisão final?), deixando o livro menos enxuto do que poderia; e uma suspeita que me assaltou ao terminar a leitura: aqui, como em "Uma janela em Copacabana" os envolvimentos eróticos do detetive Espinosa parecem obedecer a um destino fixo: se a mulher com quem Espinosa se deita é moralmente questionável - adúltera ou prostituta - seu destino é um só: ser assassinada. As outras escapam. Moralismo do autor? Ou inconscientemente esse deseja 'apagar' as transgressões do seu protagonista matando as mulheres com quem errou? Fica a dúvida. Um pouco menos de disponibilidade sexual do herói - ao menos, um pouco de mais critério - soaria melhor. E não deixaria uma impressão dúbia.