A FICÇÃO DE OCTAVIA BUTLER É MAIS REAL DO QUE GOSTARÍAMOS Lauren Olamina está casada e acaba de ter uma filha em Bolota, a comunidade que construiu com outras pessoas que haviam perdido tudo. Nos últimos cinco anos sua religião Semente da Terra cresce e se desenvolve junto com a comunidade. O país, porém, começa a passar por uma preocupante mudança. O candidato à presidência Andrew Steele Jarret está ganhando popularidade com a promessa de “tornar a América grande novamente” em um retorno aos valores tradicionais e cristãos. Para seus fanáticos seguidores, isso exige o fim da tolerância religiosa e de qualquer equidade racial ou de gênero – e estão dispostos a impor sua doutrina com violência. A segurança da pequena comunidade e da família nascente de Olamina nunca foi garantida. “Deus é mudança”, mas eles sobreviverão a mais uma?
A Parábola dos Talentos -
Octavia E. Butler
Qual o preço a se pagar para fazer história?
Cheguei ao final da duologia "Semente da Terra" e mais uma vez não foi nada do que eu esperava. A Octavia E. Butler era a definição de escritora corajosa. Esse livro, em geral, é totalmente diferente do primeiro e mesmo assim tudo se encaixa perfeitamente, ela leva o desenvolvimento religioso/filosófico e familiar para um nível que eu não imaginava ver numa distopia. E a dualidade da protagonista, a Olamina (ou Lauren), foi o grande destaque dessa obra de arte para mim. Nesse livro temos a surpresa de que quem passa a narrar a história é a filha da Olamina, a Larkin mas as narrações da Olamina ainda voltam por meio de diários da mãe que Larkin apresenta. Ver todo o ponto de vista da Larkin nessa história trouxe uma riqueza gigante. Nunca foi segredo que a Olamina sente que a grande missão da vida dela é espalhar a mensagem e a filosofia da Semente da Terra, que a Mudança é Deus e que o futuro da humanidade está no espaço. Até que ponto a Olamina está disposta a sacrificar suas relações pessoais por isso? A própria segurança, e da família? Tudo isso é colocado em jogo quando vemos que o extremismo político chega ao ápice quando os Estados Unidos ficam sob comando de um presidente fascita. A Octavia E. Butler não se conteve ao colocar a crueldade do fascismo da forma mais crua e clara possível. Uma nação à beira do colapso e afundando em pobreza e violência viu num governante duro a esperança para acabar com o medo que eles sentem. Eu fiquei chocada com os relatos e descrições que ela colocou aqui, o extremismo religioso levando à ascensão de grupos como o KKK (literalmente imitando-os), além de perseguição a diversas minorias, como LGBTQIA+, pobres, mulheres, muçulmanos, judeus (na verdade, qualquer um que não fosse cristão), moradores de rua, dentre outros. Não há piedade, apenas medo e tortura. Ver como a Olamina e sua comunidade reagiam a isso foi doloroso de ler, mas ao mesmo tempo foi muito realista. Toda a união e força que ela preza na Semente da Terra são colocados à prova. Aqui eu acho que a gente viu o ápice da desgraça nesse universo. O primeiro livro focou muito em problemas mais locais, nesse passamos a ver numa esfera nacional e às vezes até mesmo mundial. A Olamina quer salvar o mundo, mas será que ela consegue? Como conciliar isso com uma família, com uma filha que precisa dela? E tudo isso indo contra a maré, porque ela está num país que diz que pessoas como ela são vilões da sociedade. Como ela será vista? Como a tratarão? Ela vai conseguir tudo? Dá pra ver que algumas coisas deverão ser sacrificadas, e em certas situações fica difícil ver quem está certo ou errado, fica pra você que está lendo refletir e decidir. Eu amei esse livro, foi uma conclusão maior do que eu imaginava. O único defeito pra mim é que algumas vezes ele se torna repetitivo, como as jornadas de sobrevivência (que já tinha desde o primeiro livro). Mas fora isso, foi impecável. A Octavia E. Butler pegou uma distopia que poderia parecer só mais uma e colocou diversos questionamentos sobre política, discriminação, problemas familiares, crenças religiosas, e muito mais. A leitura muitas vezes é pesada e contém diversos gatilhos, mas para quem aguenta, vale cada página.
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