Pássaros na Boca -

    Samanta Schweblin

    Elsinore
    2018
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9789898864321
    Português

    «Se bateres muito com a cabeça de alguém no asfalto - mesmo que seja para a obrigar a ser razoável -, é provável que acabes por lamentá-lo. Esta foi uma coisa que a minha mãe me ensinou desde o princípio, no dia em que bati com a cabeça de Fredo no chão do pátio do colégio.» Em Pássaros na Boca, antologia de contos galardoados com o prémio Casa de las Americas, reúnem-se dezoito histórias onde, tal como num filme de Lynch ou num pesadelo de Kafka, o insólito e o grotesco irrompem com violência na normalidade do quotidiano, deixando à sua mercê personagens e leitores. É este o mundo de Samanta Schweblin, um território privado que nos obriga a participar ativamente no desvendar dos enigmas que servem de chão ao conto e a sermos espetadores do teatro das relações humanas.

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    Berttoni Licarião14/10/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Pássaros na boca reúne 18 contos da argentina Samanta Schweblin, herdeira das narrativas mais desconcertantes de Casares, Ocampo, Cortazar e Susana Silvestre. A autora recebeu o prêmio Casa de Las Americas na categoria conto em 2008 pelo livro La furia de las pestes, sem edição brasileira. Ainda que não tragam inovações quanto à forma (e quem disse que precisa disso, meldels?) as narrativas de Schweblin abordam a realidade sempre de uma perspectiva insólita—construindo suspenses a partir do cotidiano mais comezinho, ou das perturbações mais dilacerantes. . Três contos chamam a atenção e vou trazê-los aqui em respeito às mulheres que, recentemente, sofreram violências perpetradas por eleitores do candidato misógino, racista, homofóbico, desqualificado. Em “Mulheres desesperadas”, uma fastasmagoria num posto de beira de estrada dá voz à centenas de esposas abandonadas que, ao se vingarem, revelam a verdadeira face do machismo. Já no conto “Conservas”, uma jovem resolve desengravidar-se por achar que não é o momento certo de ser mãe. Impossibilitada de abortar pela legislação dos corpos femininos, ela recorre à única solução viável: uma desgravidez. Por fim, “A mala pesada de Benavides” é um dos contos mais incríveis que li nos últimos anos: um homem mata a sua mulher e deposita seu corpo destroçado em uma mala de couro. Desesperado, busca a ajuda de seu psiquiatra que, maravilhado com a "obra" produzida pelo paciente, o convence a expor mala-e-corpo como uma instalação de arte: uma narrativa arrepiante sobre a espetacularização da violência contra mulher e a indiferença dos homens, o silenciamento dos homens, a conivência dos homens. . O candidato machista declarou que não pode controlar seus eleitores. Se houvesse o mínimo de decência naquele calhorda, ele levantaria a voz para condenar atos bárbaros de violência cometidos em seu nome. Mas ali não há decência, ou respeito, ou preocupação com o humano—ali só há um poço sem fundo de ignomínia. #EleNão

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