Pássaros na boca e Sete casas vazias - Contos reunidos

    Samanta Schweblin

    Fósforo
    2022
    280 páginas
    9h 20m
    ISBN-10: 6589733562
    Português Brasileiro

    É famosa a afirmação de Júlio Cortázar de que no “embate que se trava entre um texto apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve vencer por nocaute”. Herdeira direta de uma distinta linhagem de nocauteadores, da qual fazem parte Adolfo Bioy Casares e o próprio Cortázar,Samanta Schweblin, que já afirmou se identificar como autora de contos, mais do que de romances, está à frente de uma geração de escritores que renovam os votos de afinidade entre a forma breve e a ficção latino-americana. A autora recupera também a tradição do conto fantástico novecentista europeu, que encontra na Argentina solo fértil para o florescimento de um novo insólito, calcado nas particularidades do país. Esta reunião de dois volumes de contos da autora, o cultuado Pássaros na boca (2009), em tradução revisada de Joca Reiners Terron, e Sete casas vazias (2015), inédito no Brasil, apresenta uma miríade de personagens incomuns, narrativas fantásticas, elementos sobrenaturais, sanguinolentos e grotescos que fizeram de Schweblin um destaque internacional da literatura contemporânea. Pássaros na boca é título homônimo de um conto em que uma menina passa a se alimentar de pássaros vivos, para desespero de seus pais. Se isso não parece verossímil, tampouco o são os demais personagens: uma esposa assassinada em uma mala torna-se obra de arte, um herdeiro milionário age como criança na loja de brinquedos, um rapaz passa por uma prova inusitada a fim de se tornar um assassino de aluguel, entre outros. Sete casas vazias, por sua vez, explora o espaço doméstico como palco de um terror que, por ser cotidiano, não é menos inquietante. Aqui, o metrô, o trânsito, os mercadinhos de bairro e apartamentos pequenos são cenários de divórcios, suicídios, doenças e dos não ditos que preenchem cômodos e ilustram com nitidez o estranho familiar [Unheimlich] descrito por Freud. Medos se combinam à intimidade das famílias e ao caos que pode reinar entre um cigarro e uma xícara de café, ou numa simples ida à farmácia. Em ambos os livros, Schweblin oferece uma exímia contística e flerta com o lado sombrio e com o horror ao mesmo tempo em que reconhece a graciosidade e a inocência dos deslocados, mostrando que seu lado melancólico pode ocasionar tanto o riso quanto a reflexão.

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    Berttoni Licarião14/10/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Pássaros na boca reúne 18 contos da argentina Samanta Schweblin, herdeira das narrativas mais desconcertantes de Casares, Ocampo, Cortazar e Susana Silvestre. A autora recebeu o prêmio Casa de Las Americas na categoria conto em 2008 pelo livro La furia de las pestes, sem edição brasileira. Ainda que não tragam inovações quanto à forma (e quem disse que precisa disso, meldels?) as narrativas de Schweblin abordam a realidade sempre de uma perspectiva insólita—construindo suspenses a partir do cotidiano mais comezinho, ou das perturbações mais dilacerantes. . Três contos chamam a atenção e vou trazê-los aqui em respeito às mulheres que, recentemente, sofreram violências perpetradas por eleitores do candidato misógino, racista, homofóbico, desqualificado. Em “Mulheres desesperadas”, uma fastasmagoria num posto de beira de estrada dá voz à centenas de esposas abandonadas que, ao se vingarem, revelam a verdadeira face do machismo. Já no conto “Conservas”, uma jovem resolve desengravidar-se por achar que não é o momento certo de ser mãe. Impossibilitada de abortar pela legislação dos corpos femininos, ela recorre à única solução viável: uma desgravidez. Por fim, “A mala pesada de Benavides” é um dos contos mais incríveis que li nos últimos anos: um homem mata a sua mulher e deposita seu corpo destroçado em uma mala de couro. Desesperado, busca a ajuda de seu psiquiatra que, maravilhado com a "obra" produzida pelo paciente, o convence a expor mala-e-corpo como uma instalação de arte: uma narrativa arrepiante sobre a espetacularização da violência contra mulher e a indiferença dos homens, o silenciamento dos homens, a conivência dos homens. . O candidato machista declarou que não pode controlar seus eleitores. Se houvesse o mínimo de decência naquele calhorda, ele levantaria a voz para condenar atos bárbaros de violência cometidos em seu nome. Mas ali não há decência, ou respeito, ou preocupação com o humano—ali só há um poço sem fundo de ignomínia. #EleNão

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