Vou contar uma coisa: eu conheci um Vonnegut. Não era o próprio Kurt Vonnegut, é claro, mas uma pessoa parecida com ele, na aparência e na forma de ver o mundo. Trata-se de um excelente professor de literatura e língua portuguesa, e seu nome é Roberto Juliano, apelidado carinhosamente por nós, alunos da época, de "Jaiminho" - há inclusive vídeos dele no YouTube, incluindo duas aparições no "Provocações", do Antônio Abujamra. É um provocador, um dos responsáveis pelo meu questionamento de algumas verdades enfiadas goela abaixo, um professor que nos deu uma inesquecível aula sobre a Santa Inquisição, com descrições performáticas de técnicas de tortura, entrecortadas por comentários ácidos. Havia um boato (verdadeiro ou não!) de que ele era uma pessoa com traumas da época da ditadura militar, que o fizeram ver os absurdos da nossa realidade e, de forma sarcástica, transmiti-los ao mundo, assim como Vonnegut o fez em sua obra-prima de 1973, Café da Manhã dos Campeões.
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O livro é uma sátira que usa um humor muito peculiar para tratar com escárnio a sociedade americana da época, escárnio esse que pode muito bem ser extrapolado para os dias atuais — Trump mesmo é quase um personagem vonnegutiano que criou patas e saiu espalhando absurdos por aí, assim como Bolsonaro — ha!, como eu queria ler Vonnegut falando sobre essas figuras absurdas!!! Ele diria algo como: "E você tinha alguma dúvida de que o mundo ia chegar a este ponto? É assim mesmo...".
Mas voltemos ao livro.
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Breakfast of Champions veio em uma época conturbada: Politicamente, os EUA colecionavam escândalos como o de Watergate e da Guerra do Viet Nã (como é grafado no livro). Em sua vida pessoal, ao mesmo tempo em que Vonnegut havia conquistado o sucesso com Matadouro 5, passava por uma separação traumática, por um grave problema psiquiátrico do filho e pela própria depressão. O escritor estava fazendo 50 anos e precisava se reciclar — não é viagem minha, ele fez questão de colocar isso no prefácio do livro:
"Este livro é meu presente de aniversário de 50 anos para mim mesmo. Sinto como se estivesse alçando ao cume de um telhado, tendo subido por um dos lados.
Fui programado para me comportar de forma imatura aos 50 anos, desenhando bandeiras nazistas, e um cu, e um monte de outras coisas com uma caneta com ponta de feltro. Para dar uma ideia do grau de maturidade das ilustrações que eu fiz para este livro, eis o meu desenho de um cu:
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Acho que estou tentando tirar de dentro da minha cabeça todo o lixo que tem nela: cus, as bandeiras, as calcinhas. Sim, tem um desenho de uma calcinha neste livro. Estou também me livrando de personagens dos meus outros livros. Chega de shows de marionetes.
Acho que estou tentando deixar a minha cabeça tão vazia quanto há 50 anos, quando eu nasci neste planeta defeituoso."
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Acho este início genial porque já deixa bem claro o tom do livro: o da sátira metalinguística com tons autobiográficos. O livro, na verdade, era para ser uma ficção científica sobre um planeta habitado por robôs e apenas um ser com livre-arbítrio, mas Vonnegut estava com um bloqueio criativo e desistiu da ideia. Sabem o que é mais interessante? Este plot ainda está na história, mas na forma de um livro de um dos personagens.
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Ah, sim, os personagens! Temos dois protagonistas: Kilgore Trout, um escritor falido de sci-fi conhecido de quem já leu Matadouro 5, e Dwayne Hoover, a personalização do sonho americano que Vonnegut tanto critica no livro. Os dois são, de certa forma, surtados, mas, enquanto Trout já vive à margem da sociedade e parece estar habituado com isso, Hoover está à beira de um surto psicótico, algo que o autor faz questão de nos anunciar logo no início da história. O caso é que o encontro dos dois personagens é que vai causar o surto de Dwayne, e a história se desenrola durante os acontecimentos que culminam nesse encontro.
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Confuso? E era para ser mesmo, porque é na construção do texto que está o mais fantástico easter egg de todos: em Matadouro 5, Vonnegut nos conta que os alienígenas de Trafalmadore (Curiosos? Pois leiam este livro, outra obra-prima!) vivenciam passado, presente e futuro de uma só vez, ou seja, nada para eles tem de fato um começo ou fim; trata-se de um ciclo. E, por conta disso, sua escrita é feita em blocos separados por 3 estrelas, sem a nossa ordem cronológica padrão, uma vez que tudo é lido ao mesmo tempo. E adivinhem como é escrito Café da Manhã dos Campeões? Fantástico, simplesmente fantástico!!!!!!
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O livro é — usando um linguajar vulgar que Vonnegut teria adorado — um chute nas bolas! Ele é recheado de críticas absurdamente ácidas ao capitalismo, à economia belicista, às guerras em si e, principalmente, ao racismo. E, quando ele fala deste tema, não economiza nas palavras: dá relatos até chocantes em determinados pontos, como na família negra que foi expulsa de sua casa com requintes de crueldade.
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Mas não é só de sarcasmo que esta historia foi construída. Há momentos em que Vonnegut fala sobre pequenos momentos de sanidade da humanidade e o leitor percebe que o escritor assume um tom mais sério em seu texto, como um ator de comédia que sai do seu papel por um momento para tratar de um assunto sério. O mais marcante destes momentos é quando ele fala sobre o Dia do Armistício. Vonnegut diz assim:
"Foi durante esse minuto em 1918 que milhões e milhões de seres humanos pararam de massacrar semelhantes. Conversei com idosos que estiveram nos campos de batalha naquele minuto. Eles me disseram que, de um jeito ou de outro, aquele silêncio repentino era a Voz de Deus. Então, ainda temos entre nós alguns homens que lembram de quando Deus falou claramente com a humanidade."
... Mas todos nós sabemos quão raros são estes momentos de sanidade dentre os humanos, portanto em seguida o autor já recobra o seu tom sínico novamente.
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E, com tantos absurdos acontecendo no mundo e na vida pessoal de Vonnegut, ele escreve o livro como um manual para explicar a sociedade na qual vive. E esse manual é repleto de desenhos ridículos e explicações infantis (na superfície!), porque essa seria a única maneira de tentar colocar um pouco de ordem no caos. Eis algumas das explicações dadas pelo autor:
"Existe um quatrilhão de nações no Universo, mas a nação da qual Dwayne Hoover e Kilgore Trout faziam parte era a única cujo hino nacional era um monte de besteira salpicada de pontos de interrogação.
Assim era sua bandeira:
[ desenho tosco da bandeira dos EUA ]"
"E este, segundo Trout, era o motivo pelo qual os seres humanos eram incapazes de rejeitar uma ideia só por ela ser ruim:
- Na Terra, as ideias são como símbolos de amizade ou inimizade. O conteúdo não importa. Amigos concordam entre si para expressar sua amizade. Inimigos discordam entre si para expressar sua inimizade."
"Quando Dwayne Hoover e Kilgore Trout se conheceram, seu país era, de longe, o mais rico e poderoso do planeta. Possuía as maiores reservas de alimentos, minerais e maquinário, e disciplinava os demais países ameaçando lançar grandes foguetes ou jogar coisas em seus territórios usando aviões."
"O revólver era uma ferramenta cujo único propósito era o de fazer buracos em seres humanos. Ele se parece com isso:
[ desenho tosco de um revólver ]
E assim por diante..."
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Um detalhe que eu gostaria de ressaltar, e que não vi em nenhuma das resenhas que li sobre o livro, é a semelhança que podemos traçar entre Café da Manhã dos Campeões e VALIS, de Philip K. Dick: os dois são psicodélicos, são autobiográficos, seus respectivos autores se inserem nas tramas com seus próprios nomes e ambos — pasmem — possuem ideias de livros que não foram à frente incorporadas às histórias — cada um à sua forma, ambos geniais! E quem leu minhas resenhas anteriores sabe que comparar qualquer coisa com PKD é um elogio dos maiores!
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Em suma, Café da Manhã dos Campeões não é um livro fácil, nem um pouco cômodo, com um humor que não tem necessariamente intenção de fazer rir, mas sim de afrontar, e exige que o leitor saia de sua própria zona de conforto, pois ele é escrito por um escritor extremamente inteligente, sagaz e... bem, ele estava puto com a loucura do mundo, e o livro é o resultado de seu "descarrego". Não poderíamos esperar por uma leitura simples e convencional nestas condições, poderíamos?
TS:
Fleetwood Mac:
- Then Play On (1969)
- Fleetwood Mac (1975)
- Rumours (1977)