Mais uma crítica ácida e refinada à sociedade brasileira dos anos 50, na qual os bens e o dinheiro pareciam substituir a moral. Nessa obra, como em outras do universo rodriguiano, há um mundo único e particular, mórbido e imoralmente amoral no seio de uma família tradicional e burguesa. Entendo que Nelson era simultaneamente odiado tanto por reacionários quanto por revolucionários, e tem toda a minha admiração por isso.
Vamos ao enredo: uma morta chamada Sônia é a protagonista desta excelente peça. Isso mesmo. Mas não há tanto foco no mundo espiritual, e mais na crítica social que o autor quis fazer, e o fez com sucesso. A morta tenta reavivar sua memória, para entender o que aconteceu, tenta juntar os pedaços de coisas, imagens, sons e pessoas que fizeram parte de sua vida e que se embaralham em suas lembranças, tudo isso tendo relação com a música Valsa n.6 de Chopin. Ela odeia o nome Sônia, que não consegue relacionar consigo mesma; esqueceu-se de si, esqueceu-se do próprio nome no pós-vida.
Minhas humildes impressões da obra:
É uma peça ao mesmo tempo simples de entender e complexa. Simples principalmente para aquele leitor que está habituado com a escrita de Nelson; complexa para quem tem dificuldade de relacionar a peça com elementos psicológicos.
Entendi que a menina Sônia deve ter sofrido algum trauma, com certeza algo de fundo sexual, talvez relacionado a algum abuso cometido por um homem mais velho, pois ela diz sentir medo do médico da família, o dr. Junqueira, e fica histérica até quando dizem que ele vai examinar suas amígdalas. Qual seria a origem desse medo? A conclusão de um possível abuso parece ser a mais óbvia.
A protagonista tenta relembrar quem é Paulo, um personagem que pode ter sido seu noivo, ou algum outro homem importante em sua vida, por quem sente um feroz misto de ódio e amor. Ela lembra-se de sentir adoração por esse misterioso Paulo de cujo rosto ela não se recorda; fantasia ter sido traída por Paulo. No final, há o desenrolar de toda a tragédia, de maneira bastante exagerada, bem rodriguiana mesmo. Fiquei sem fôlego quando acabei de ler.