Tirem seus pregos e martelinhos dos bolsos, porque hoje vamos construir uma resenha de Adam Bede aqui!
Meu primeiro contato com a Eliot foi em Silas Marner, o Tecelão. Ali, eu vi que tipo de autora ela é: uma autora que não constrói vilões unilaterais, que explora as consequências de atitudes imprudentes e que preza pela dignidade de seus personagens e traz retidão à conduta deles.
Em Adam Bede ela fez brilhar tudo que mostrou em Silas. Adam é um homem lá pelos vinte e sete, que vive com o irmão, a mãe e o pai. Praticamente, é ele quem segura as pontas, pois o pai é um alcoólatra, a mãe é daquela espécie que é super apegada a uma prole e a outra é relegada (pobre Seth) e reclama pelos cotovelos. No meio disso, temos a família Poyser (os verdadeiros protagonistas, convenhamos), em que há um casal, seus três filhos e Hetty, a sobrinha de quem eles cuidam já que ela não tem mais os pais.
Quando o pai do Adam morre, a trama começa a se movimentar. Conhecemos a Dinah, uma pregadora metodista, que vira uma sensação na cidade, pois a maioria acha o que ela faz extremamente fora da doutrina. Ela é pedida em casamento pelo Seth, que também segue a mesma religião, mas Dinah o rejeita e crê que sua missão não é cuidar de um lar, embora ela admita que isso tem muito valor.
A partir daqui teremos spoilers, tudo bem? Por sua conta em risco!
A trama é dividida entre momentos mais lentos e um pouco mais dinâmicos, com muitas digressões durante a narrativa. Sério, tem um capítulo inteiro dedicado ao narrador filosofar sobre a beleza etc., sobre o pároco e você precisa estar muito no clima para passar por essas reflexões. Eu estava, então não me incomodaram.
Nós temos aqui uma espécie de triângulo amoroso, mas calma! Não é como um triângulo amoroso de um YA em que a pobre menina não sabe qual dos dois rapazes ela vai querer: o bad boy ou o príncipe encantado?. NÃO. Estamos falando de Eliot... Leu direito? E.L.I.O.T! No início desse triângulo (ou no fim?) está Arthur Donnithorne, que é herdeiro das terras em que mora a família Poyser. Ele e metade dos homens de Hayslope (incluindo o Adam, tá?) são apaixonados pela Hetty. A doce, linda e encantadora Hetty! Oh, aquele beicinho! A própria Hetty é apaixonada por ela mesma. Como resistir?
Aqui eu preciso me gabar, talvez sem mérito, porque todo mundo notou? Me deixa pensar que eu sou especial! Mesmo antes daquela frase ele olhou para ela como um homem olha para um objeto no qual está interessado, sim, mesmo antes disso, eu pensei OS DOIS? AHHHH. Mas isso demora horrores, viu? Quando se trata de Eliot, nunca, NUNCA sejam motivados por romance.
A Dinah é uma querida! Doce, suave, uma brisa fresca que vem para amenizar a tristeza e enviá-la para um novo percurso. Ela é tão querida, que conquistou a pessoa mais difícil de ser conquistada nesse livro (eu não estou falando do Adam). Em contrapartida, Hetty é pura vaidade e ambição, embora ao mesmo tempo ela seja extremamente ingênua em vários aspectos.
Arthur é o que Hetty anseia e ele também a quer, mas ao mesmo tempo não deseja se comprometer, pois ela não está a altura de uma Donnithorne, sendo apenas a filha de uma família humilde. Nisso, muita coisa acontece e nesse ínterim você consegue sentir pena e raiva de todos os personagens. O jeito como o Adam enxergava a Hetty me dava nos nervos, ele praticamente projetava sua pureza nela e justificava suas atitudes. Desejei muito durante toda a trama que ele abrisse os olhos.
A autora me fez, no fim das contas, sentir pena da Hetty, ela passa maus bocados, mas admirei a maneira como o Adam tinha uma mente tão aberta considerando a época e como ficou ao lado dela até o fim. O plot dela é punk, sério! No entanto, quem me emocionou mais foi a Dinah. Temos uma cena nesse livro que é de fazer os olhos marejarem! Sou cristã e senti ali o verdadeiro amor de Deus e o jeito como a autora conseguiu passar isso... Meus irmãos, fiquem de pé e batam palmas! Foi lindo, tocante e sensível.
O que mais amei nesse livro foi que a autora nos deixou tantas críticas, mostrou que tudo tem consequências, que não devemos almejar as coisas superficiais e a família Poyser, creio eu, era um exemplo de como deveria ser um lar com amor. Ao mesmo tempo, ela ainda conseguiu me fazer entender a Hetty e como era difícil suportar determinadas situações, porque ela dependia dos tios para autorizar como ela deveria seguir o próprio destino e, mesmo que eles tivessem boas intenções, foi sufocante. Ela era uma egoísta e narcisista? Sim! Mil vezes, sim! Mas tinha momentos em que podíamos entendê-la.
O final... Ah, eu esperei tanto por #Dinadam e a Eliot me deu migalhas... Ela passou tanto tempo em Hetty e Adam e eu sofri tanto com o nosso Addy, que quando ela me deu meu casal, com aquelas míseras cenas, eu fiquei Amiga? Sai desse túmulo agora e vem DESENVOLVER meu casal direito ^^. Foram poucas as cenas, a forma de o Adam perceber seus sentimentos pela Dinah acheio meio Hã? e a forma como ele pensou o mínimo no Seth também me deixou Adam queridinho, vem cá, embora eu já soubesse que Seth, sendo um amor, não faria drama (graças a Deus por isso, ninguém queria uma novela mexicana!). O casamento... Adam melancólico, pensando em tudo que ocorreu para que ele chegasse até aquele instante e um peso no peito. Doeu muito, viu, Eliot? Mas a Dinah era o amor tranquilo, o amor de alma, não beleza e paixão juvenil.
De certa forma, temos um final feliz e um epílogo. Foi um desfecho agridoce, de fato. Feliz, mas também triste. Foi aquele livro que eu chamo de vida. Dói muito, porque está mais perto da realidade do que uma Lizzie e Darcy. Mas eu amei de todo o meu coração e a autora se tornou uma das minhas favoritas. Adam Bede vai ficar comigo para sempre.