O Leão (Coleção Calouro) - Texto em português de Sérgio Augusto Teixeira

    Joseph Kessel

    Edições de Ouro / Tecnoprint Gráfica Editora S. A.
    1972
    180 páginas
    6h 0m
    ISBN-10: B00HCV16G2
    Português Brasileiro

    O leão é um romance de 1958 do autor francês Joseph Kessel sobre uma menina e seu leão. O romance foi traduzido para o inglês por Peter Green e foi transformado em um filme estrelado por William Holden em 1962. [Le Lion / Joseph Kessel] C’est l’histoire d’un amour fou entre une petite fille et un lion. Patricia et King. L’histoire se déroule dans le parc royal d’Amboseli au Kénya, au pied des neiges éternelles du Kilimandjaro, au cœur de la savane. Le narrateur d’emblée ressent l’innocence et la fraicheur des premiers temps du monde qui émane du paysage où seuls vont les animaux dits sauvages. L’apparition de Patricia est une révélation quand le visiteur découvre avec stupeur sa relation avec le roi des animaux, King le lion. La voix de Patricia l’émeut particulièrement « car elle ne servait plus au commerce étroit et futile des hommes : elle avait la faculté d’établir un contact, un échange entre leur misère, leur prison intérieure, et ce royaume de vérité, de liberté, d’innocence qui s’épanouissait dans le matin d’Afrique. » Le père de Patricia, c’est Bullit, le directeur de la réserve, une force de la nature, un ancien chasseur de métier et un tueur repenti et converti. Il est fier de sa fille. La mère, c’est Sibyl, une femme qui ne se sent pas vraiment dans son élément dans cette Afrique secrète qui l’angoisse en permanence. Elle voudrait que Patricia aille en pension à Nairobi pour étudier et cela semble aller totalement à l’encontre des désirs de la petite fille soutenue en secret par son père. La rencontre des Masaï et du narrateur est un haut moment du récit : il est séduit par cette démarche princière qui est la leur, paresseuse et cependant ailée, un façon superbe de porter la tête et la lance ainsi que le morceau d’étoffe qui jeté sur une épaule, drape et dénude le corps à la fois. Il est séduit par la beauté mystérieuse de ces hommes noirs venus du Nil en des temps très anciens par des chemins inconnus. Et puis il y a la rencontre avec King : guidé par la petite fille, qui aux yeux des membres des tribus africaines passe pour une sorcière et est respectée et même redoutée, le visiteur vit un moment d’exception quand il voit le lion glisser son mufle de son côté, les yeux dirigés vers les mains, puis les épaules et enfin le visage, étudiant ce personnage inconnu : « Alors, avec une stupeur émerveillée, où, instant par instant, se dissipait ma crainte, je vis dans le regard que le grand lion du Kilimandjaro tenait fixé sur moi, je vis passer des expressions qui m’étaient lisibles, qui appartenait à mon espèce, que je pouvais nommer une à une : la curiosité, la bonhomie, la bienveillance, la générosité du puissant…Nous étions réunis tous les trois dans l’amitié de l’ombre et de la terre… » Mais l’ombre d’un jeune masaï morane rode autour de Patricia et de King et l’on ressent une certaine inquiétude au fil des pages… Joseph Kessel dans ce très beau roman nous offre une description somptueuse des paysages de l’Est Africain paradisiaques qu’il a parcourus avec en toile de fond le Kilimandjaro ; cette aventure ravira tous les amoureux de la nature et des grands espaces. J’ai eu la chance de parcourir personnellement le parc national du Masaï Mara au Kénya et côtoyé un temps les tribus Masaï et je peux dire que la description faite par l’auteur est en tout point fidèle à la réalité malgré quelques décennies d’écart. Rien n’a changé à une nuance près : le portable est apparu ! Et puis l’antagonisme entre notre chauffeur kikouyou et notre pisteur masaï est toujours d’actualité : ils s’ignoraient complètement même lorsque le repas les réunissait. Lu il y a de nombreuses décennies, j’ai relu avec un plaisir immense ce beau roman d’aventure plein de sensibilité et d’humanité.

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    Geovana Lisa04/04/2026Resenhou um livro
    1 (Ruim)

    Incômodo

    Eu tive uma experiência muito ambígua. Ao mesmo tempo em que reconheço a força narrativa e a beleza de algumas construções, grande parte da leitura me causou estranhamento e, em vários momentos, um desconforto real. O que mais me chamou atenção foi a forma como o narrador, um homem adulto, descreve Patrícia. Existe um olhar que, para mim, ultrapassa o limite do que seria uma simples admiração ou interesse por uma criança. Em diversos trechos, senti um tom que beira algo inadequado, como se houvesse uma tentativa de colocar a menina em um lugar de igualdade emocional com ele (ou até de cumplicidade) que não faz sentido considerando a diferença de idade e posição. Quando leio passagens que sugerem uma “intensidade” compartilhada entre eles, ou quando ele se sente profundamente afetado pela relação com ela, eu não consigo evitar interpretar isso como algo problemático. Em alguns momentos, esse olhar me pareceu até mesmo perturbador, com uma ambiguidade que abre espaço para leituras com conotação pedofílica. Não é algo explícito, mas está ali, insinuado e isso me incomodou bastante. Esse desconforto aumenta quando Patrícia não corresponde a esse vínculo da mesma forma. Quando ela afirma que não tem amigos e o coloca “como os outros”, eu sinto que há um choque entre o que ele construiu internamente e a realidade. Enquanto ela estabelece um limite claro, ele reage como se tivesse sido profundamente rejeitado, quase em desespero. Isso reforça, para mim, a ideia de que essa relação existia muito mais na perspectiva dele do que em uma troca real. Outro ponto que me incomodou muito ao longo da leitura foram as falas racistas. Não são trechos isolados, existe uma lógica constante de inferiorização das pessoas negras, tratadas como menos civilizadas ou até descartáveis. Eu não consegui ler isso como “apenas reflexo da época”, para mim, isso estrutura a forma como o mundo do livro é construído. Ao mesmo tempo, reconheço que a relação entre Patrícia e o leão tem uma potência simbólica muito forte. Existe algo ali que me parece mais genuíno do que qualquer relação humana apresentada na história. O vínculo dela com o animal carrega uma ideia de liberdade, de instinto, de conexão que escapa das regras sociais. E talvez seja justamente isso que fascina tanto o narrador e que também o desestabiliza. O final me impactou bastante. Eu já imaginava que algo trágico pudesse acontecer, mas a forma como se desenrola ainda assim me pegou emocionalmente. Foi um momento forte, que contrasta com todo o incômodo que eu vinha sentindo ao longo da leitura. Outra coisa que me causou estranhamento foi a postura da mãe de Patrícia. A sugestão de que o narrador leve a filha embora me pareceu completamente deslocada, quase irreal. Isso me fez questionar ainda mais as relações construídas no livro e o quanto elas fazem sentido dentro de uma lógica afetiva. Por fim, me marcou, mas não necessariamente de forma positiva. Eu consigo reconhecer seu valor literário e simbólico, mas não consigo ignorar os elementos que me causaram desconforto. Para mim, é um livro que exige uma leitura crítica, principalmente em relação ao olhar do narrador, às questões raciais e à forma como a infância é retratada.

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