A Casa de Barcos -

    Jon Fosse

    Fósforo
    2024
    144 páginas
    4h 48m
    ISBN-10: B0CW7XG16G
    Português Brasileiro

    Originalmente publicado em 1989, A casa de barcos é até hoje uma das obras mais emblemáticas do estilo literário que rendeu a Jon Fosse o prêmio Nobel de literatura em 2023. Narrado no ritmo frenético de um homem tomado pela angústia, o romance combina temas recorrentes da literatura mundial — amizade, ciúme e triângulos amorosos — com um estilo inovador e hipnótico, no qual um narrador pouco confiável mantém a tensão até a última página, nos fazendo avançar e recuar ao sabor do seu fluxo de consciência. A história se passa em uma pequena cidade costeira da Noruega, próxima a um fiorde. O protagonista é um homem solitário. Sem nunca ter se estabelecido profissionalmente, ele vive com a mãe e ganha algum dinheiro tocando guitarra em bailes da região. O encontro fortuito com Knut, um amigo de infância que mudara de cidade e agora volta para passar o verão com a esposa e as duas filhas, é o evento que desencadeia no narrador o sofrimento que o obriga a escrever. O convívio inesperado com a esposa do amigo traz à tona memórias da juventude dos dois e reabre feridas mal cicatrizadas. Neste romance virtuoso, que mescla ousadia estilística e elementos de thriller escandinavo, é possível experimentar fisicamente o transe literário criado por Fosse. Como os personagens, apequenados e à deriva ao pé do imenso fiorde, ao nos deixarmos levar por estas páginas, experimentamos uma das mais perfeitas traduções literárias dos tormentos humanos.

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    Carlos14/08/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    No silêncio da angústia

    Nesta trama de intrigas e de idas e vindas, a técnica narrativa de Jon Fosse permite que se tenha em mãos uma obra cuja condução estética materializa o movimento de ir e vir que as ondas do mar possuem, também remetendo ao constante retorno à casa de barcos que, além de título e de ambiente dentro da narrativa, tem importância de como se um personagem fosse. Isso ocorre especialmente porque a simples referência a este espaço faz com que a história contada por aquele homem angustiado entre em um novo ciclo de repetições ou de flashbacks, colocando a casa neste patamar de elemento âncora da narrativa, uma vez que parece ser o ponto capaz de fazer os personagens saírem e retornarem a si. Assim, saiba-se que em ‘A casa de barcos o leitor terá, seguramente, um autor que não teme o desconforto estético e que se mostra, de fato, capaz de dizer aquilo que, se não é indizível é, pelo menos, de complexa abordagem por meio da linguagem. A história simples de uma espécie de triangulação sexual (não se pode confundir com o triângulo amoroso) ganha mais complexidade ao proporcionar uma leitura reflexiva, detalhista, mesmo que repetitiva. É uma narrativa em que em pouco se pode confiar e que a muito se deve retornar devido a ousadia estilística que se tem em vista para escrever sobre o tormento humano ou, melhor ainda, sobre o tormento da humanidade acerca do qual pouco ou quase nada se fala de modo coletivo. Talvez aí more o “indizível” que fez com que a Academia Sueca acertasse ao conceder a Jon Fosse o seu merecido Nobel em literatura.

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