3.5
Bem vindos a mais uma edição do vício contemporâneo em Anna Kavan. Gelo é o livro que eu mais queria empurrar para meu clube do livro, e acho que devo me desejar com sorte que não foi votado. Acho que eu seria banido do clube.
Anna Kavan já é relativamente incompreensível e surrealista em suas antologias de contos (só li Julia & the Bazooka até então), mas aqui as coisas são elevadas a um extremo, pois tudo é claramente conectado, mas ao mesmo tempo tão não explicado, mal alinhado e circular. Nos contos tudo se conecta em temas e elementos; mas aqui quando é tudo é mais claramente imbricado, a trama vai se perdendo em sonhos e desilusões e longas viagens de barco.
A história é irrelevante, mas as vibes são imaculadas. Tem uma anoréxica anêmica coitada que fica correndo por aí enquanto o narrador persegue ela para salvá-la (lê-se: abusar dela). Você passa o livro na cabeça do maluco, e vai percebendo que ele é desajustado, e que o grande antagonista que vive roubando a garota talvez seja ele também. Mas talvez não: o livro não se dá ao trabalho de explicar. É tudo escrito com uma dose considerável de drogas, o que gera uma ambientação curiosa e desesperadora.
A mulher é a figura mais interessante, e o interessante é que ela nem mesmo é um personagem, ela só é vista através dos olhos e das desilusões dos homens, habitando uma posição eterna de vítima e de donzela, definida como homens a definem e se perdendo nesse papel.
É um livro fascinante, um sonho febril, realmente febril; por vezes eu descrevo histórias como caindo nesse onírico (Vita Nostra/Body After Body); mas esse é realmente mergulhado no surrealismo, onde tudo propositalmente cai para a irracionalidade, e a fantasia é construída na falta de sentido do mundo. O slipstream aqui degenera em uma série de fatores que se conectam mas não perfeitamente, tudo levado por uma paixão obsessiva que não demora para deixar claro que não é saudável para ninguém envolvido.
Gostei da experiência, mas é um livro difícil, meio cansativo, onde você não pode se ater muito aos fatos pois eles não se atém realmente a si mesmos. É um livro que falta uma conclusão, onde você tem que assumir coisas por si mesmo, e onde nenhum personagem é agradável de se acompanhar.
Extremamente experimental, único, incômodo. Prefiro muito mais os contos aos romances - os quais pretendo revisitar, ao contrário desse - mas é possível perceber um mesmo estilo de ambientes borrados e mentes confusas.