"Dois sonhos" traz a novela "O sonho do titio" e uma espécie de crônica, ou folhetim de acordo com a tradução de Paulo Bezerra, intitulada "Sonhos de Petersburgo em verso e prosa.
"O sonho de titio" é um escracho. A comédia é a ferramenta do escritor para expor a decadência acelerada da aristocracia russa em sua época. Os personagens principais são um velho príncipe completamente gagá e Maria Alieksandróvna, a maior fofoqueira da cidade de Mordássov, quiçá do mundo. Maria quer porque quer casar sua filha, a bonitona Zina com o príncipe, mesmo contra a vontade da moça.
Zina é a única personagem decente e nobre da trama cheia de quiproquós, mas acaba jogando o jogo do jeito que ele é jogado.
Dostoievski é implacável. É provável que sua capacidade de observação dos seus contemporâneos tenha determinado essa característica.
Essa personagem protagoniza uma sequência de intensa carga dramática, a agonia e morte do rapaz por quem era apaixonado, o que quebra completamente o ritmo da novela ao intercalar drama logo após os trechos mais engraçados da comédia. Ser capaz de articular gêneros narrativos tão diferentes - sem perder o fio da meada - é coisa para gênio.
O mais importante é que não é apenas a linguagem ou a estética dos grandes romances escritos nas duas décadas seguintes, já presentes nas novelas curtas. A inquietação do escritor diante das repercussões no ser humano, das grandes mudanças econômicas e sociais em curso na Rússia do século XIX, é a principal “marca” de Dostoievski nesses escritos mais breves.
Para encerrar, também vale muito a pena a crônica/folhetim sobre a vida intelectual de São Petersburgo, foco do texto que completa o volume e escrita para uma revista editada pelo seu irmão Mikhail. O leitor do século XXI, um pouco mais crítico e insatisfeito com as futilidades e repetições de jornais, revistas, portais na internet, irá identificar em Dostoievski um porta-voz quando ele diz:
“o mais lamentável é que eles de fato imaginam que se trata de novidades. A gente pega um jornal, não tem vontade de ler: em toda parte é a mesma coisa…”