Terra de Santa Cruz -

    Adélia Prado

    Record
    2025
    112 páginas
    3h 44m
    ISBN-13: 9788501922779
    Português Brasileiro

    Publicado originalmente em 1981, Terra de Santa Cruz, de Adélia Prado, retorna com nova capa para celebrar a grande figura da atual poesia brasileira, vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis. A publicação de Terra de Santa Cruz, em 1981, consolidou Adélia Prado como uma das vozes mais originais da poesia brasileira na segunda metade do século XX. Depois da arrebatadora estreia com o hoje clássico Bagagem (1976) e da consagração de O coração disparado (1978), vencedor do Prêmio Jabuti, a autora mineira arrematou o que o crítico Augusto Massi definiu como a “santíssima trindade de seu modo poético”. Das três partes que compõem a obra – Território, Catequese e Sagração –, as duas últimas são dedicadas a poemas que dialogam intensamente com a religiosidade, mas também reafirmam a fé da poeta no cotidiano, no povo e nas coisas simples da vida, como em A porta estreita: “Deus, tem compaixão desta cidade / e de mim que andei em suas ruas / secretamente dizendo-me: / sou o poeta deste povo.” Com o país ainda sob uma ditadura, a poeta é incisiva ao dizer, no poema Terra de Santa Cruz, que “Os torturadores todos enlouquecem” e “os regimes iníquos apodrecem”. Em Casamento, um dos mais belos poemas do livro, o amor, o desejo e o companheirismo estão representados em uma travessa de peixes: “Há mulheres que dizem: / Meu marido, se quiser pescar, pesque, / mas que limpe os peixes. / Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, / ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. / É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, / de vez em quando os cotovelos se esbarram”. A obra está repleta de “cenas da vida privada”, em que os poemas se desenrolam a partir de fios narrativos e imagens poéticas poderosas, como acontece em Móbiles e Miserere (poema que daria título a um livro da escritora três décadas mais tarde). Lugar onde a poesia se encontra intimamente com a vida, Terra de Santa Cruz também foi um livro fundamental para sedimentar o caminho poético que Adélia Prado brilhantemente percorreria nas décadas seguintes. Agora, a tempo de comemorar os prêmios Camões e Machado de Assis (ABL), conquistados pela autora em 2024, Terra de Santa Cruz retorna aos leitores com nova capa, assinada pelo premiado designer Leonardo Iaccarino, sobre a tela Uma aventura obstinada (2022), da artista plástica Manoela Monteiro.

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    Everton Vidal picture
    Everton Vidal30/07/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Poesia do cotidiano, cheia de religiosidade e erotismo, muita intertextualidade, principalmente com a Bíblia, mas também com Drummond, o poeta com quem mais ela conversa. Essa matriz erótico-teológica da poeta é a sua principal característica, uma teologia que não é a dos seminários, mas a do dia a dia, que contém elementos tanto da catequese católica como da crença popular, e um erotismo que não romantiza o corpo, mas que o mostra sem fantasias, tal como é. Sua poesia abarca as coisas da vida com muita sutileza, numa linguagem coloquial equilibrada e com muita, muita positividade. É uma poesia alegre, mesmo quando te fala de dor e morte, é uma poesia feliz, mas sem ser de forma alguma inocente. Apresento dois dos meus poemas favorito desse livro como exemplo: CASAMENTO Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como ‘este foi difícil’ ‘prateou no ar dando rabanadas’ e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. O LUGAR DA NECRÓPOLE Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo já morreu. Há quem tendo falado suas dores secretas está hoje selado sob lápides, excrescendo sobre mim o seu fantasma de pessoa verdadeira, rebelada, de pessoa poética. Na juventude me comprazia o fúnebre, as faces lívidas dos poetas doentes. Hoje, só preciso da vida pra morrer. Nas metrópoles, o campo-santo acaba confundido, rodeado de bares. E por causa disso iludem-se as pessoas de ter nas mãos a indomesticável. O cemitério quer ladeira e montes para os quais se olha ao entardecer: um dia estarei lá, lá longe, no incontestável lugar.

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