Terra de Santa Cruz -

    Adélia Prado

    Nova Fronteira
    1981
    104 páginas
    3h 28m
    ISBN-13: 1000238510462
    Português Brasileiro

    Publicado pela primeira vez em 1981, Terra de Santa Cruz traz poesias que revelam uma crise na vida da autora, marcada pela proximidade da velhice e pela perda de algumas certezas e religiosas. Nesta obra, com o mesmo nome que os portugueses deram ao Brasil, Adélia amplia seu diálogo sobre vida e morte, tristeza e alegria. "Tenho tanta saudade dos meus mortos! Estou tão feliz! Á beira do ridículo arde meu peito em brasas de paixão. Vinte anos de menos, só seria mais jovem. Nunca, mais amorável. Já desejei ser outro. Não desejo mais não. "

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    Everton Vidal30/07/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Poesia do cotidiano, cheia de religiosidade e erotismo, muita intertextualidade, principalmente com a Bíblia, mas também com Drummond, o poeta com quem mais ela conversa. Essa matriz erótico-teológica da poeta é a sua principal característica, uma teologia que não é a dos seminários, mas a do dia a dia, que contém elementos tanto da catequese católica como da crença popular, e um erotismo que não romantiza o corpo, mas que o mostra sem fantasias, tal como é. Sua poesia abarca as coisas da vida com muita sutileza, numa linguagem coloquial equilibrada e com muita, muita positividade. É uma poesia alegre, mesmo quando te fala de dor e morte, é uma poesia feliz, mas sem ser de forma alguma inocente. Apresento dois dos meus poemas favorito desse livro como exemplo: CASAMENTO Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como ‘este foi difícil’ ‘prateou no ar dando rabanadas’ e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fim, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. O LUGAR DA NECRÓPOLE Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo já morreu. Há quem tendo falado suas dores secretas está hoje selado sob lápides, excrescendo sobre mim o seu fantasma de pessoa verdadeira, rebelada, de pessoa poética. Na juventude me comprazia o fúnebre, as faces lívidas dos poetas doentes. Hoje, só preciso da vida pra morrer. Nas metrópoles, o campo-santo acaba confundido, rodeado de bares. E por causa disso iludem-se as pessoas de ter nas mãos a indomesticável. O cemitério quer ladeira e montes para os quais se olha ao entardecer: um dia estarei lá, lá longe, no incontestável lugar.

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