Neste premiado romance, Elisa Lispector rompe com os estereótipos de mulher ao discutir de forma original temas como divórcio, maternidade e relações familiares. Temos aqui o romance mais emblemático de Elisa Lispector. Publicado em 1963, O muro de pedras rapidamente angariou críticas elogiosas de alguns dos grandes intelectuais de seu tempo e conquistou prêmios relevantes como o Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. Neste grande monólogo, conhecemos Marta, uma mulher em conflito que se tornou refém de seu casamento tedioso e de sua complexa relação com a mãe. Para se ver livre de sua rotina aprisionante, ela pede o divórcio, sem contar, porém, que tamanha liberdade a levaria à paralisia. Frustrada, Marta traça então um novo plano: se isolar no sítio da família e se tornar mãe. Elisa Lispector apresenta com originalidade e maestria a angústia de uma mulher que, desejando encontrar sua autonomia, caminha em direção ao próprio isolamento. A partir dos ciclos de recomeços de Marta, esta poderosa narrativa aborda temas considerados difíceis, como o desamparo, a solidão e a liberdade, mas que constituem o cerne dos sentimentos humanos. A presente edição conta com apresentação inédita de Nádia Battella Gotlib – escritora e biógrafa da irmã Lispector mais nova, Clarice –, além de prefácio de Jeferson Alves Masson – especialista na obra de Elisa Lispector. “Elisa Lispector desenvolveu um estilo muito diferente do da irmã Clarice, mas reconhecemos um inquestionável ar de família.” ― Benjamin Moser “Um romance como O muro de pedras dá exemplo de notável acuidade na percepção dos mais leves matizes da afetividade.” ― Alfredo Bosi “De fato, um dos seus melhores romances é O muro de pedras. [...] [Neste], e na maioria dos demais, a personagem feminina ganha destaque na sua luta contra a angústia e a inevitável solidão. Mais um traço de afinidade com a literatura de Clarice.” ― Nádia Battella Gotlib
O muro de pedras -
Elisa Lispector
Minha experiência de leitura
Lembro-me com certa precisão do dia em que comprei esse livro num sebo. Eu já havia comprado alguns livros da Clarice e gostei tanto de sua escrita, que voltei lá para comprar mais um, sem saber ao certo por qual título procurar. Perguntei à vendedora, não havia nenhum. Decepcionada, já ia saindo da loja sem nada levar quando ouvi a vendedora me chamar. Moça, pode ser este aqui? Parece ser da irmã dela, quer ver? Pode ser. Comprei sem folhear direito. A vendedora, cuja experiência lhe dá o poder de conhecer seus clientes sem precisar saber seus nomes, deve ter notado a falta de brilho em meus olhos e pediu-me que voltasse em breve, pois sempre tem alguém querendo trocar livros, então aos poucos fui preenchendo o espaço reservado às obras de Clarice, tendo sempre ao lado O Muro de Pedras. E agora, cinco anos depois, finalmente tive coragem de pegar para lê-lo. Foi um sentimento estranho, como uma aluna que gosta muito de sua professora e lamenta pelos últimos dias de aula sabendo que no ano seguinte outra pessoa ocupará o cargo, obrigando-se ao encontro com o desconhecido. A cada página eu ficava mais aliviada, como quando acaba-se por gostar da nova professora, sabendo que um dia poderá se esbarrar com a outra na escola da vida. E nutre-se um amor equivalente e ao mesmo tempo diferente, pois cada pessoa é única. O Muro de Pedras foi publicado em 1963 e é um romance considerado intimista. O enredo não é linear e a narração é em terceira pessoa, contando a história de Marta, uma mulher que tem crises existenciais. Nas primeiras páginas, conhecemos a complexa relação dela com a mãe quando esta vai lhe visitar e fica reparando na arrumação da casa. Durante uma discussão causada pelos comentários intrometidos de Eunice, Marta reage: "Mamãe, quando é que você compreenderá que está me destruindo, que não suporto mais as suas críticas, as suas zombarias, os seus reparos constantes? Deixe-me viver errado, mas deixe-me viver. Já sou adulta, já posso assumir a responsabilidade dos meus atos." Então Eunice lhe responde com seu mesmo jeito zombeteiro, sempre insinuando que Marta ainda não é uma pessoa completa, que seus fracassos nada têm a ver com a mãe. E de repente, como hábito, muda totalmente de assunto fingindo que estão conversando pacificamente sobre a costura do vestido. A submissão e o respeito pela mulher que lhe deu a vida chega ao limite com o falecimento do pai, e finalmente a mãe vai embora para longe, deixando-a encarar sozinha a própria liberdade. Entre um relacionamento e outro, Marta chega a pensar que sua grande missão é ser mãe, embora haja o dilema entre gerar uma vida ou deixar de viver. "Viver era-lhe agora o mesmo que arranhar as pedras de um muro; os dedos sangravam, sem que ela conseguisse inscrever nele o mais leve indício de sua dor." Bem, antes de ler esse livro você precisa saber que a narrativa é bastante instrospectiva, sem demarcação específica de tempo ou momento histórico, sem contar também a situação da sociedade. Não há predominância de cenas com ação, nem muita profundidade dos personagens secundários, apenas o necessário para acompanhar a vida da protagonista. A leitura foi agradável e pude notar diversas semelhanças nas características psicológicas de alguns personagens e pessoas que conheço. A história de Marta tornou-se inesquecível para mim; Elisa Lispector tornou-se inesquecível.
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