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    Katábasis -

    R.F. Kuang

    Intrísenca
    2025
    480 páginas
    16h 0m
    ISBN-13: 9788551012239
    Português Brasileiro
    4
    3061 avaliações
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    <b>Na nova fantasia dark academia da autora de <i>A Guerra da Papoula</i> e <i>Babel</i>, dois doutorandos rivais precisam embarcar em uma jornada até o Inferno para salvar a alma de seu orientador.</b> Alice Law tem apenas um objetivo: se tornar uma das mentes mais brilhantes da área de magia analítica. Ela sacrificou tudo: orgulho, vida amorosa e até mesmo a sanidade. Abriu mão do que foi preciso para entrar no programa de pós-graduação de Cambridge e trabalhar ao lado do professor Jacob Grimes, o maior mago do mundo. Mas Grimes não é uma figura fácil. Rígido e exigente, é capaz de ultrapassar qualquer limite. E em um universo onde cometer o menor erro pode ser física e moralmente fatal, Alice se vê sem rumo quando o professor morre em um experimento mágico simples. E a culpa talvez seja dela. O renomado professor vai parar no Inferno ― um lugar inclemente, árido e sombrio, composto por tribunais que expõem os pecados e as vicissitudes humanas. E não resta alternativa a não ser buscá-lo. Afinal, o futuro dela agora está nas mãos de um ser espectral. Mas Alice não vai embarcar nessa jornada sozinha: para seu azar, Peter Murdoch, seu principal rival ao estrelato acadêmico, teve a mesma ideia. Com apenas um punhado de giz para traçar pentagramas mágicos e os registros de Dante e Orfeu para guiá-los através do Inferno, Alice e Peter vão se embrenhar pelo submundo para salvar um homem de quem nem sequer gostam. O Inferno, no entanto, não parece ser como a literatura e a filosofia descrevem. E a magia nem sempre é a solução. Há algo que une Alice e Peter e pode transformá-los nos aliados perfeitos… ou então levá-los de vez à destruição. Em uma narrativa audaciosa e cáustica que reflete sobre os círculos infernais da academia, R.F. Kuang une romance, lógica, filosofia e mitologias grega e chinesa a um debate profundo sobre misoginia e estruturas de poder. Katábasis é uma busca atemporal por sentido para aqueles que lutam para encontrar propósito em um mundo intrinsecamente imperfeito.

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    Maria Gallinea picture
    Maria Gallinea01/08/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Entre os mortos só resta a linguagem

    Tive a oportunidade de ler o livro antes de seu lançamento por meio de um E-ARC (Advanced Reading Copy) e R.F. Kuang mais uma vez escancara as entranhas da academia, mas desta vez ela o faz não apenas com o rigor de uma crítica social, ela o faz com fogo e magia. Em Katabasis, a autora leva seus leitores por uma jornada literal ao Inferno, reimaginado como um campo de batalha acadêmico, filosófico, mítico e emocional. É uma narrativa carregada de erudição e paixão, onde os limites entre o intelecto e a alma são não só borrados, mas desmantelados com precisão cirúrgica. A protagonista, Alice Law, é uma jovem brilhante, obcecada por ser a melhor em magia analítica, uma disciplina que combina lógica formal, matemática, linguística e prática arcana. Desde o início, sabemos que ela sacrificou tudo: relações, estabilidade mental, corpo e afetos. Ela está completamente moldada e deformada pelo sistema acadêmico que venera. E é esse sistema que desmorona diante de seus olhos quando seu mentor, Jacob Grimes, o maior mago vivo, morre subitamente durante um experimento. A partir daí, Kuang articula um enredo com ecos de A Divina Comédia, Orfeu e Eurídice e até Journey to the West (clássico da mitologia chinesa). Alice, guiada pela culpa e pelo medo de perder o pouco que conquistou, decide literalmente descer ao Inferno para resgatar o professor. Não por amor, mas por sobrevivência. Por reputação. Por obsessão. Mas o Inferno de Katabasis não é um submundo uniforme. É um arquipélago de tormentos lógicos, morais e burocráticos. Cada círculo parece fundado não em pecados religiosos, mas em distorções estruturais do conhecimento, da ética, do desejo de poder. E ao lado dela vai Peter Murdoch, seu rival na pós-graduação, que carrega suas próprias fraturas e ambições. A dinâmica entre eles, cheia de tensão, sarcasmo, ferocidade intelectual e, por vezes, uma vulnerabilidade pungente, é um dos grandes trunfos do livro. A estrutura da narrativa também reflete esse labirinto infernal. Kuang alterna entre ação direta, diálogos ferinos, trechos que soam como tratados filosóficos, e momentos de pura introspecção lírica. A prosa é refinada, cheia de referências explícitas a Dante, Homero, Platão, mas também a pensadoras contemporâneas e à mitologia chinesa, que insinuam uma dualidade cultural importante na formação de Alice. O que torna Katabasis tão poderoso, no entanto, não é só seu brilhantismo técnico. É sua honestidade brutal sobre o que é estar em um ambiente que exige perfeição enquanto silencia afetos, desejos e corpos. Alice é uma mulher atravessada pela misoginia institucionalizada, pela lógica da meritocracia destrutiva, pelo mito do gênio e por isso mesmo sua jornada é profundamente comovente. Ela não é heroína. É sobrevivente. O título do livro já nos prepara: “katabasis” é a descida ao mundo dos mortos, o mergulho no abismo, um rito antigo presente em múltiplas tradições. Mas Kuang não quer apenas reencenar mitos. Ela quer mostrar como estamos todos já vivendo neles. Como a academia se tornou, para tantos, um tipo de inferno ritualizado. E como, mesmo no mais árido dos lugares, ainda resta a linguagem. Ainda resta escrita. Ao fim, não há promessa de salvação, apenas de compreensão. Talvez isso seja o bastante. Talvez seja tudo que podemos pedir de um livro: que ele nos desça ao mais fundo de nós, e nos devolva algo novo. Mais ferido, sim. Mas também é mais verdadeiro.

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