Eu gostei muito do filme A SINGLE MAN, dirigido pelo Tom Ford (que recebeu no Brasil o título ridículo de "Direito de Amar", completamente despropositado). Esta adaptação foi criticada por alguns pelo "excesso de beleza" - atores, figurantes, cenários, figurinos, etc - que causaria um certo ar artificial em tudo, apesar do trabalho excepcional de Colin Firth e Julianne Moore.
Fiquei curioso sobre o livro. Trata-se de um romance semiautobiográfico do britânico Christopher Isherwood, que causou alguma polemica quando foi lançado em 1964 (no Brasil só em 1985 pela Editora Record, e está fora de catálogo - atualizando: felizmente reeditado em 2021 pela editora Cia das Letras), por apresentar como protagonista um professor universitário homossexual que não se conforma com a morte de seu companheiro de longa data.
Isherwood descreve com maestria um dia na vida de George, desde o momento em que ele acorda e toma consciência de si mesmo até o adormecer. No meio da sua rotina de acordar, tomar café, se preparar para ir ao trabalho, dar aulas, fazer compras, visitar amigos, etc., há vários pensamentos e reflexões, sensações despertadas pelas mais variadas situações, principalmente as lembranças, a saudade imensa de seu companheiro que morreu. Seria um dia comum na vida dele, a não ser por um detalhe, revelado nas últimas linhas.
Em relação ao filme de Tom Ford há uma diferença crucial: além da glamourização exagerada, no filme o George parece profundamente infeliz, incapaz de continuar a viver com a falta de seu companheiro, e planeja meticulosamente seu suicídio. Não há isso no livro. Neste, George vive um dia comum, com seus momentos de tédio, frustração, desesperança, mas também como momentos de alegria (com sua amiga Charley e seu aluno Kenny), inclusive com planos para o futuro.
Claro que no livro há mais reflexões, divagações, e uma outra passagem diferente. Mas posso dizer que é um caso raro no qual o filme (deslumbrante) é quase tão bom quanto o livro (magnífico).