Zero -

    Ignácio de Loyola Brandão

    Global
    2010
    392 páginas
    13h 4m
    ISBN-13: 9788526014992
    Português Brasileiro

    Publicado em 1974, primeiramente na Itália e só depois no Brasil (liberado em 1979), Zero é um romance que oferece um retrato pungente de sua época, pois foi escrito pela necessidade de grito diante da Ditadura Militar Brasileira (1964-1985), um período marcado pela censura cultural e o controle dos indivíduos no que eles tinham de mais íntimo, assim como a prisão, tortura e assassinato de pessoas que se opusessem de qualquer forma ao regime. Extremamente experimental, Zero intenta retratar o caos tanto no conteúdo quanto na forma e isso fica evidente pelos vários tipos de textos que se apresentam ao longo da narrativa: a simulação de recortes de jornal, propagandas, cartazes, inscrições de banheiro, letras de músicas e inúmeros outros tipos de texto vão criando uma paisagem do país e seu contexto histórico-social. No momento em que este livro que assombrou o Brasil durante a ditadura e continua fascinando as novas gerações pela ousadia e pelas inovações completa 35 anos, trazemos a palavra de Armindo Blanco, jornalista e crítico de cinema, que combateu Salazar, teve de se exilar e aqui morreu: "Espantoso romance. Às vezes, dá a impressão de uma reportagem crua, despojada. Outras, de um filme correndo à velocidade de um milhão de imagens por segundo. Ignácio de Loyola Brandão supera o âmbito do individual para nos dar o retrato de corpo inteiro de uma cidade. De um parque industrial. De um caldeirão fervente de raças. De um país. De um continente. Melhor ainda: de um tempo desvairado, com os homens se transmudando em ratos e perdendo o sentido da própria existência. Ele nos transmite repulsa e fascínio por este universo selvagem, dominado pelo dinheiro e pela solidão e em que mesmo o amor é uma proposta de aniquilação mútua, a fuga à abjeção pela abjeção. A ordem na desordem, as palavras de ordem, a desordem das palavras".

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    INGRID MAYARA ALLEBRANDT14/01/2018Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma desordem organizada

    Publicado na Itália em 1974, Zero foi lançado no Brasil em 1975 e no ano seguinte recebeu o prêmio de “Melhor Ficção”, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Poucos meses após a premiação, foi censurado pelo Ministério da Justiça e proibido em todo o território nacional. Voltou à circulação em 1979. De início, o livro parece não fazer sentido devido a sua estruturação caótica. É uma união de diversos fragmentos textuais e recursos gráficos como: ilustrações, poesia concreta, provérbios, breves textos jornalísticos e enciclopédicos e até mesmo trechos bíblicos. Há também algumas colunas indicando que algo ocorre em paralelo à vida dos personagens. O autor utiliza-se de uma linguagem popular bastante semelhante à oralidade, com uma mistura de português, espanhol e inglês. Além disso, o uso de vírgulas e outras pontuações estão dispostas de maneira peculiar. O livro trata principalmente da vida de José, um homem comum que, ao se casar com Rosa, luta para construir uma vida estável em uma cidade marcada pela repressão do regime militar. O sonho de Rosa era ter uma vida "normal"; uma casa própria com comida, marido, filho e cachorro. José não possui grandes objetivos na vida, mas sua esposa o convence a comprar uma casa. Ele se esforça para conseguir tal objetivo de maneiras ilícitas; não exatamente por amor, mas basicamente para ela parar de perturbá-lo. Certo humor é empregado no livro, equilibrando os momentos de tensão (roubos, execuções, (des)ordem política e social). Há o erotismo escancarado que deixa um desconforto físico e mental. Particularmente, eu me incomodei bastante com essa parte, no entanto, acabou sendo uma das minhas favoritas porque pude conhecer melhor o interior da personagem Rosa. Aproximadamente na metade do livro, pude notar certa regularidade nos fragmentos. Ao mesmo tempo em que há o caos estrutural, há também uma bagunça organizada, que dá uma boa ideia dos acontecimentos ditatoriais reais do Brasil, que ao pesquisar sobre o livro, descobri que de fato esse era o propósito; ou também, acho que daria para considerá-lo como uma distopia brasileira: novas leis e regras que antes seriam absurdas, exagerada imposição militar para o "bem" da população, censura com objetivo de alienação e idealizações éticas e morais. Sinceramente, não sei se recomendo esse livro às pessoas sensíveis ao erotismo e escrita considerada marginal. Quanto à estrutura em fragmentos, tive facilidade porque é algo parecido com as redes sociais, onde acompanhamos as histórias dos nossos amigos, rolamos o mouse, de repente vemos uma notícia triste e perturbadora, rolamos o mouse, nos deparamos com uma imagem engraçada, rolamos o mouse e prosseguimos com algo que lembre uma citação ou poema; e assim seguimos a vida, para melhor ou para pior.

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