Publicado na Itália em 1974, Zero foi lançado no Brasil em 1975 e no ano seguinte recebeu o prêmio de Melhor Ficção, da Fundação Cultural do Distrito Federal. Poucos meses após a premiação, foi censurado pelo Ministério da Justiça e proibido em todo o território nacional. Voltou à circulação em 1979.
De início, o livro parece não fazer sentido devido a sua estruturação caótica. É uma união de diversos fragmentos textuais e recursos gráficos como: ilustrações, poesia concreta, provérbios, breves textos jornalísticos e enciclopédicos e até mesmo trechos bíblicos. Há também algumas colunas indicando que algo ocorre em paralelo à vida dos personagens.
O autor utiliza-se de uma linguagem popular bastante semelhante à oralidade, com uma mistura de português, espanhol e inglês. Além disso, o uso de vírgulas e outras pontuações estão dispostas de maneira peculiar.
O livro trata principalmente da vida de José, um homem comum que, ao se casar com Rosa, luta para construir uma vida estável em uma cidade marcada pela repressão do regime militar. O sonho de Rosa era ter uma vida "normal"; uma casa própria com comida, marido, filho e cachorro. José não possui grandes objetivos na vida, mas sua esposa o convence a comprar uma casa. Ele se esforça para conseguir tal objetivo de maneiras ilícitas; não exatamente por amor, mas basicamente para ela parar de perturbá-lo.
Certo humor é empregado no livro, equilibrando os momentos de tensão (roubos, execuções, (des)ordem política e social).
Há o erotismo escancarado que deixa um desconforto físico e mental. Particularmente, eu me incomodei bastante com essa parte, no entanto, acabou sendo uma das minhas favoritas porque pude conhecer melhor o interior da personagem Rosa.
Aproximadamente na metade do livro, pude notar certa regularidade nos fragmentos. Ao mesmo tempo em que há o caos estrutural, há também uma bagunça organizada, que dá uma boa ideia dos acontecimentos ditatoriais reais do Brasil, que ao pesquisar sobre o livro, descobri que de fato esse era o propósito; ou também, acho que daria para considerá-lo como uma distopia brasileira: novas leis e regras que antes seriam absurdas, exagerada imposição militar para o "bem" da população, censura com objetivo de alienação e idealizações éticas e morais.
Sinceramente, não sei se recomendo esse livro às pessoas sensíveis ao erotismo e escrita considerada marginal. Quanto à estrutura em fragmentos, tive facilidade porque é algo parecido com as redes sociais, onde acompanhamos as histórias dos nossos amigos, rolamos o mouse, de repente vemos uma notícia triste e perturbadora, rolamos o mouse, nos deparamos com uma imagem engraçada, rolamos o mouse e prosseguimos com algo que lembre uma citação ou poema; e assim seguimos a vida, para melhor ou para pior.