Esplim de Paris : Pequenos Poemas em Prosa -

    Charles Baudelaire

    Martin Claret
    2010
    168 páginas
    5h 36m
    ISBN-13: 9788572328005
    Português Brasileiro

    É a obra póstuma de Charles Baudelaire e, sem exagero algum, o seu canto do cisne. Neste livro o gênio do poeta francês se revela completo, formando de elementos aparentemente incompatíveis - poesia e prosa, horror e beleza, piedade e blasfêmia - um cativante mosaico verbal. Com uma rapidez vertiginosa, sua alma triste e sublime passa do esdrúxulo, luxuoso e luxurioso parque das sombras do Inferno, em que a localiza Cruz e Sousa, para a Terra Prometida onde a felicidade se une ao silêncio, e essa viagem espiritual produz uma mágica impressão de catarse, de instantâneo acesso aos mais profundos mistérios existenciais. Baudelaire mostra ao leitor, sejam quais forem a época e o contexto sociocultural deste, tudo o que a vida humana tem de bom e de ruim, de falso e de verdadeiro, levando-o, numa espécie de demonstração por absurdo, a redescobrir os valores eternos e, não obstante, incomuns tanto na França do século XIX como no Brasil de hoje: amor, altruísmo, abnegação... Repletos de imagens fortes e pitorescas, os O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa proporcionam uma leitura ora agradável, ora chocante, mas sempre arrebatadora: quem os ler uma vez, jamais esquecerá!

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    jean carlos herpich01/05/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Embriagai-vos!

    "É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas - de quê? De vinho, de poesia, ou de virtude, como achardes melhor." Baudelaire oferece com "Pequenos Poemas em Prosa" uma ótima oportunidade de nos embriagarmos. Embriaguez de poesia. Em prosa e na vida prosaica o poeta francês nos revela o lirismo poético. Em pequenos relatos que poderiam ser facilmente confundidos com crônicas está latente uma visão da existência e da vida humana que mostram, no mais alto grau, a sensibilidade própria dos poeta. Poeta não trata de sentimentos. Poesia é experiência. O poeta revela o que está ocultos aos nossos olhos já cansados. Ele apresenta outra vez o mundo, mostrando sua profundidade, sua beleza, mas também sua miséria. Assim, Baudelaire pode descobrir na alegria e na exaltação a figura do velho saltimbanco como no relato homônimo: "Tudo era luz, poeira, grito, alegria, tumulto; uns gastavam, outros ganhavam ? uns e outros, igualmente, felizes. As crianças penduravam-se nas saias de suas mães para obter um torrão de açúcar ou subiam nos ombros de seus pais para melhor ver um mágico deslumbrante como um deus. E por toda parte circulavam, dominantes, todos os perfumes, um odor de fritura que era como que o incenso dessa festa. No fim, no extremo fim da fila de barracas como se, envergonhado, ele se exilasse de todos esses esplendores, vi um pobre saltimbanco encurvado, caduco, decrépito, uma ruína de homem, encostado contra uma estaca de sua cabana; uma cabana mais miserável do que a de um selvagem embrutecido, onde dois cotos de velas pingavam cera e enfumaçavam o ambiente que iluminava muito bem aquela miséria. Por toda a parte a alegria, o ganho, a libertinagem; por toda a parte a certeza do pão do dia seguinte; por toda a parte uma explosão frenética de vitalidade. Aqui, a miséria absoluta, a miséria ridiculamente vestida para o cúmulo do horror; farrapos cômicos em que a necessidade, bem mais que a arte, introduzira o contraste. Ele não ria, o miserável. Não chorava, não dançava, não gesticulava, não gritava; não cantava nenhuma canção, nem alegre nem lamentosa, não implorava. Estava mudo e imóvel. Renunciara, tinha abdicado a tudo. Seu destino estava selado. Mas, que olhar profundo, inesquecível; ele passeava no meio da massa popular e das luzes, quando as ondas humanas paravam a alguns passos de sua repulsiva miséria Eu sentia minha garganta apertada pela mão terrível da histeria e parecia que meu olhar era ofuscado por lágrimas rebeldes que relutavam em cair. Que fazer? De que serviria perguntar ao infeliz que curiosidade, que maravilha teria ele para mostrar naquelas fétidas trevas, atrás de sua cortina rasgada? Na verdade eu não ousei, e, embora a razão de minha timidez lhes faça rir, confesso que temia humilhá-lo. Enfim resolvi depositar, ao passar, algum dinheiro sobre uma de suas pequenas bandejas, esperando que ele adivinhasse minha intenção, quando um grande afluxo de gente, causado não sei por quê, levou-me para longe dele. Virando-me, obcecado por aquela visão, busquei analisar minha súbita dor e disse para mim mesmo: ?Acabo de ver a imagem de um velho homem de letras que sobreviveu à sua geração, da qual ele foi um brilhante entendedor; do velho poeta, sem amigos, sem família, sem filhos, degradado pela miséria e pela ingratidão pública e na barraca do qual o mundo sem memória não quer mais entrar!?" O mundo é experiência. O poeta sabe disso e vendo mais mostra-nos. O poeta transforma a vida prosaica em poesia. Embriagai-vos na sua poesia!

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