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    Pequenos Poemas em Prosa (Grandes Traduções) - Edição Bilíngue

    Charles Baudelaire

    Record
    2006
    287 páginas
    9h 34m
    ISBN-10: 8501070718
    Português Brasileiro
    4.3
    280 avaliações
    Leram539Lendo36Querem244Relendo2Abandonos3Resenhas5
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    "Baudeaire foi o poeta da má consciência da burguesia, expiou as covardias e os compromissos da época e, acima de tudo, previu, como um profeta, o processo de decomposição de seu mundo. Aqui o feio, o riso e o cômico entram no território sagrado da poesia. Baudelaire renasce talvez como uma última flor do mal, entre as brumas do irracionalismo e do nacionalismo. Ela já comentara, em 'Paraísos Artificiais', que a verdadeira realidade só existe nos sonhos." -- Léo Schlafman

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    jean carlos herpich01/05/2015Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Embriagai-vos!

    "É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas - de quê? De vinho, de poesia, ou de virtude, como achardes melhor." Baudelaire oferece com "Pequenos Poemas em Prosa" uma ótima oportunidade de nos embriagarmos. Embriaguez de poesia. Em prosa e na vida prosaica o poeta francês nos revela o lirismo poético. Em pequenos relatos que poderiam ser facilmente confundidos com crônicas está latente uma visão da existência e da vida humana que mostram, no mais alto grau, a sensibilidade própria dos poeta. Poeta não trata de sentimentos. Poesia é experiência. O poeta revela o que está ocultos aos nossos olhos já cansados. Ele apresenta outra vez o mundo, mostrando sua profundidade, sua beleza, mas também sua miséria. Assim, Baudelaire pode descobrir na alegria e na exaltação a figura do velho saltimbanco como no relato homônimo: "Tudo era luz, poeira, grito, alegria, tumulto; uns gastavam, outros ganhavam ? uns e outros, igualmente, felizes. As crianças penduravam-se nas saias de suas mães para obter um torrão de açúcar ou subiam nos ombros de seus pais para melhor ver um mágico deslumbrante como um deus. E por toda parte circulavam, dominantes, todos os perfumes, um odor de fritura que era como que o incenso dessa festa. No fim, no extremo fim da fila de barracas como se, envergonhado, ele se exilasse de todos esses esplendores, vi um pobre saltimbanco encurvado, caduco, decrépito, uma ruína de homem, encostado contra uma estaca de sua cabana; uma cabana mais miserável do que a de um selvagem embrutecido, onde dois cotos de velas pingavam cera e enfumaçavam o ambiente que iluminava muito bem aquela miséria. Por toda a parte a alegria, o ganho, a libertinagem; por toda a parte a certeza do pão do dia seguinte; por toda a parte uma explosão frenética de vitalidade. Aqui, a miséria absoluta, a miséria ridiculamente vestida para o cúmulo do horror; farrapos cômicos em que a necessidade, bem mais que a arte, introduzira o contraste. Ele não ria, o miserável. Não chorava, não dançava, não gesticulava, não gritava; não cantava nenhuma canção, nem alegre nem lamentosa, não implorava. Estava mudo e imóvel. Renunciara, tinha abdicado a tudo. Seu destino estava selado. Mas, que olhar profundo, inesquecível; ele passeava no meio da massa popular e das luzes, quando as ondas humanas paravam a alguns passos de sua repulsiva miséria Eu sentia minha garganta apertada pela mão terrível da histeria e parecia que meu olhar era ofuscado por lágrimas rebeldes que relutavam em cair. Que fazer? De que serviria perguntar ao infeliz que curiosidade, que maravilha teria ele para mostrar naquelas fétidas trevas, atrás de sua cortina rasgada? Na verdade eu não ousei, e, embora a razão de minha timidez lhes faça rir, confesso que temia humilhá-lo. Enfim resolvi depositar, ao passar, algum dinheiro sobre uma de suas pequenas bandejas, esperando que ele adivinhasse minha intenção, quando um grande afluxo de gente, causado não sei por quê, levou-me para longe dele. Virando-me, obcecado por aquela visão, busquei analisar minha súbita dor e disse para mim mesmo: ?Acabo de ver a imagem de um velho homem de letras que sobreviveu à sua geração, da qual ele foi um brilhante entendedor; do velho poeta, sem amigos, sem família, sem filhos, degradado pela miséria e pela ingratidão pública e na barraca do qual o mundo sem memória não quer mais entrar!?" O mundo é experiência. O poeta sabe disso e vendo mais mostra-nos. O poeta transforma a vida prosaica em poesia. Embriagai-vos na sua poesia!

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    Charles-Pierre Baudelaire profile picture

    Charles-Pierre Baudelaire

    Órfão de pai aos seis anos, Charles-Pierre Baudelaire viria a odiar o segundo marido da mãe, o general Jacques Aupick (mais tarde, esse sentimento inspiraria sua atitude rebelde em face das convenções sociais e dos temas frívolos na poesia). Após anos de desavenças com o padrasto, Baudelaire interrompeu os estudos em Lyon para fazer uma viagem à Índia. Na volta, participou da Revolução de 1848. Após esse período conturbado, passou a freqüentar a elite aristocrática. Envolveu-se com a atriz Marie Daubrun, a cortesã Apollonie Sabatier e a também atriz Jeanne Duval, uma mulata por quem se apaixonou e a quem dedicou o ciclo de poemas "Vênus Negra". Em 1847, lançou "La Fanfarlo", seu único romance (trata-se, mais propriamente, de uma novela autobiográfica). Dez anos depois, quando se publicaram "As Flores do Mal" ("Les Fleurs du Mal"), todos os envolvidos com o livro foram processados por obscenidade e blasfêmia. Além de pagarem multa, viram-se obrigados a retirar seis poemas do volume original (só publicado na integra em edições póstumas). Tanto "As Flores do Mal" como "Pequenos Poemas em Prosa" (póstumos, 1869) introduziram elementos novos na linguagem poética, fundindo opostos existenciais como o sublime e o grotesco. Entre seus ensaios, destaca-se "O Princípio Poético" (1876), em que fixa as bases de seu trabalho. Nos diários (também publicados postumamente), revela-se profético e radical contestador da civilização moderna. Literato que avançou as fronteiras dos costumes em sua época, Baudelaire lançou-se como crítico de arte no Salão de 1845, sempre buscando um princípio inspirador e coerente nas obras artísticas. ("Salão" era o nome pelo qual se conhecia a mais importante mostra anual da pintura e da escultura francesas.) De 1852 a 1865, Baudelaire traduziu os textos do poeta e contista norte-americano Edgar Allan Poe, por quem se entusiasmara já no final da década de 1840. Outro Baudelaire, o sifilítico e usuário de drogas, surge em "Os Paraísos Artificiais, Ópio e Haxixe" (1860), uma especulação sobre plantas alucinógenas, parcialmente inspirada pelas "Confissões de um Comedor de Ópio" (1821), do escritor inglês Thomas de Quincey. Há também obras de cunho intimista e confessional, como "Meu Coração Desnudo". Baudelaire foi um dos maiores poetas franceses de todos os tempos. Alguns o consideram um antecessor do parnasianismo, ou um romântico exacerbado. Pioneiro da linguagem moderna, impôs à realidade uma submissão lírica. Embora muito criticado, tinha entre seus admiradores homens como Victor Hugo, Gustave Flaubert, Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Dissipou seus bens na boemia e na jogatina parisienses. Mergulhado em dívidas, teve de resignar-se a medidas judiciárias tomadas pelos familiares, e um tutor foi nomeado para controlar-lhe os gastos. Seus últimos anos foram obscurecidos por doenças de origem nervosa. Após uma vida repleta de tribulações, Baudelaire morreu com apenas 46 anos, nos braços da mãe. Seu talento e seu intelecto só seriam totalmente reconhecidos depois. No século 20, tornou-se um ícone, influenciando direta e indiretamente toda a moderna poesia ocidental.

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