Nihonjin conseguiu me conquistar já no início, onde o autor utiliza a metalinguagem de forma indireta para comentar sobre a memória e a capacidade de reinventá-la. Vi uma entrevista em que ele fala que baseou-se nas histórias que ouvia de seus antepassados e na sua própria vida para escrever essa ficção. Nessa entrevista, Oscar Nakasato também fala de suas dificuldades de publicação e sobre outra obra que lançou recentemente, intitulada Dois.
É curioso como a temática do racismo anda me perseguindo ultimamente, mesmo sem querer. O narrador conta um pouco como foi o processo de adaptação entre japoneses e descendentes de africanos e italianos no Brasil. Gostei muito da parte dedicada a uma personagem que, mesmo sendo discriminada por sua cor de pele, demonstra sua admirável habilidade com ervas medicinais.
Há uma cena da qual não vou me esquecer tão cedo: quando uma personagem olha pela janela e fica imaginando situações passadas no Japão... Realmente os personagens iniciais são muito bem construídos.
Quase chorei vendo o quanto a mão-de-obra dos imigrantes foi explorada. É bem triste saber como eles foram ludibriados pelo governo, e mesmo assim, persistiram em tentar preservar sua cultura ao mesmo tempo em que precisavam se adequar às leis brasileiras, que eram rígidas principalmente quanto ao hábito da linguagem e da religião.
Acho que o autor conseguiu introduzir muito bem os dramas familiares, o saudosismo japonês e a condição das personagens femininas. Falando em personagens femininas, eu gostei do tratamento da submissão aos homens no texto, pois o enredo ficou verossímil sem necessitar de muita interação com os leitores; ficou tipo mostre, não conte.
A partir da metade, parece que acabei me distanciando um pouco da narrativa. No início havia um clima bastante promissor, depois, o narrador foi progressivamente trazendo tantos conflitos que eu senti falta de saber um pouco mais. Mesmo assim, pretendo reler.
Enfim, não é um livro surpreendente, mas é muito interessante pela temática da imigração; a escrita do autor é muito boa. Embora seja um livro fininho, foi emocionante poder lê-lo devagar, acompanhando as reflexões e angústias dos personagens; e as palavras em japonês até que são fáceis de compreender (não sei se é porque estou acostumada a assistir animes).