Ainda que eu quisesse conhecer muito a história da filosofia e seus teóricos, a extensa jornada, a falta de algum guia de leitura, as discussões intermináveis e até mesmo a falta de espaço e tempo me desestimulam muito - infelizmente, como historiador da Amazônia, tenho prioridades, e a filosofia não é uma delas. Mas vez ou outra, ainda consigo agarrar uma fresta desse mundo, nem que seja das maneiras mais inesperadas e ridiculamente difíceis possíveis. E ter entrado nesse mundo via Lenin é uma delas.
Apesar de ser mais conhecido como um teórico político e econômico, Lenin também se aventurou nos preceitos filosóficos do marxismo, e Materialismo e Empiriocriticismo é sua obra maior nesse sentido (visto que os Cadernos Filosóficos, nos quais fala sobre Hegel, foram publicados somente após sua morte). Publicado em 1909, o livro é uma tentativa de refutação da filosofia empiriocriticista, que tinha como representante maior o físico Ernst Mach, que acreditava que não podemos conhecer o mundo para além de nossas percepções sensoriais (resumindo grossamente a problemática). A partir daí, Lenin inicia uma série de citações de filósofos empiriocriticistas, muitos dos quais inspirados por Berkeley e Hume, e procede a criticar todos, em defesa do materialismo histórico-dialético.
Embora Lenin não use palavras difíceis e o trabalho como um todo não esteja nos moldes acadêmicos atuais (por sinal, está presente a velha ironia cáustica do calvo russo), acompanhar a discussão é extremamente penosa simplesmente por se tratar de uma das discussões mais velhas da história da humanidade: a busca pela verdade. Existe verdade absoluta, ou mesmo verdade em qualquer grau? É possível conhecermos o mundo exterior ou estamos refém de nossos sentidos? Se fosse possível resumir bem as questões norteadoras do livro, seriam essas, para os quais Lenin tem as seguintes teses: 1) a verdade e a realidade não dependem da apreensão de nossos sentidos, isto é, existem para além de nós e independente de nós; 2) A natureza está sempre em transformação, mas isso não impede a existência das verdades enquanto estivermos sob um determinado paradigma; 3) o ser social é reflexo da ação social, isto é, da vida em sociedade (uma conclusão particularmente impressionante sabendo que Lenin não teve acesso à Ideologia Alemã); 4) a ciência não é neutra em sua filosofia - na realidade, está sempre tensionada entre avançar na concepção materialista de mundo e a percepção puramente sensorial; 5) a ciência não é neutra em sua prática - está sempre à serviço de certos sujeitos e suas épocas históricas.
Isto é um resumo bastante grosseiro de todas as discussões elencadas no livro, e eu tive vários percalços no meio do caminho, de forma que provavelmente algum apóstolo do marxismo pode se enfurecer que eu esqueci ou escrevi errado algumas teses. Além de não ser minha área de formação e de ser uma discussão muito velha, é recomendável que o leitor tenha pelo menos uma boa apreensão prévia dos pressupostos do materialismo histórico-dialético, pois nem ferrando que esse livro pode ser usado como introdução - ajuda bastante as leituras do Anti-Düring do Engels (que eu ainda não li) e O Pensamento de Lenin, do Henri Lefebvre. Além disso, Lenin é um autor extremamente culto e faz uso de várias metáforas literárias, eventos históricos e escolas filosóficas do passado, deixando espalhada toda a pesquisa necessária para se aventurar num tema não complexo. Sinceramente, ainda que a leitura esteja longe de ser ruim, não é difícil entender porque, dos livros completos publicados em vida, este é o menos comentado de Lenin.
No geral, se eu estivesse responsável por um curso de formação, eu deixaria esse livro apenas para os módulos mais avançados, pois a formação do leitor, se não deve estar à altura, precisa pelo menos não se impressionar com o preparo de Lenin (e provavelmente aprender uma língua estrangeira, pois simplesmente vários dos teóricos criticados por Lenin não tem edições em português). Isso não significa, porém, que se trate de uma leitura árida ou pedante - pelo contrário, é vigorosa e provocadora, sempre instigando o leitor a conhecer mais e mais da filosofia, sua história e seus grandes conflitos históricos, e o quanto tais conflitos estão ligados à história das lutas de classes.
*Edição lida foi a do Avante, traduzida e publicada no começo dos anos 80. A edição conta com notas de rodapé para as intervenções de Lenin, notas de fim para as intervenções realizadas pelos editores soviéticos (que amenizaram minha confusão na leitura), um glossário dos nomes dos autores citados por Lenin e a bibliografia. Além disso, tenho um PDF do livro para eventuais consultas futuras