Para Não Esquecer -

    Clarice Lispector

    Siciliano
    1992
    187 páginas
    6h 14m
    ISBN-13: 85_267_0444_3
    Português Brasileiro

    Reunião de crônicas e pensamentos publicados originalmente na segunda parte da primeira edição de A legião estrangeira (1964), sob o título de "Fundo de Gaveta". Neste livro, encontra-se um pouco da arte poética de Clarice Lispector, quando ela tece comentários sobre o seu processo de escrever. A autora também fala de suas vivências e aponta a força da poesia existente nelas, seja na visão de um quadro de Paul Klee, numa viagem à África, num passeio de táxi por Copacabana num dia de chuva ou numa conversa com os filhos.

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    Renan Duarte10/02/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    “Cada vez mais acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.”

    Uma coleção de boas crônicas da Clarice, algumas delas foram de muita inspiração! Destaco as seguintes: Mal-estar de um anjo, Uma Ira, Um amor conquistado, O Chá, Desenhando um menino, A Vingança e a reconciliação penosa e Mineirinho Em “Mal-estar de um anjo”, com humor acidez e força, vemos que a bondade ou gentileza de alguem pode ser usada/abusada pelos outros para, e ser colocado nesse lugar de anjo bondoso por vezes é uma armadilha ardilosa que pede uma subversão. Em “Uma amor conquistado” ela reflete sobre ter visto um homem passeando com um quati numa coleira, tal qual um cachorro domesticado e como isso a faz pensar sobre a natureza das coisas e a consciência que elas têm desta e de si mesmas. “O Chᔠe “Mineirinho” são um tapa com luva de pelica nos que criticam Clarice por não ser uma escritora engajada socialmente, ela sempre traz o tema dessas mulheres mas pobres, por vezes domésticas (e outros personagens marginalizados, como Mineirinho), em o contraste com suas madames (ela inclusive) e seus pensamentos e vidas. “Desenhando um menino” é algo poético e existencial, quase psicanalítico, sobre a criança a mãe, o perceber a si ao outro ao mundo (a mãe) Na crônica “A Vingança e a reconciliação penosa” encontrei muito paralelo com a Paixão segundo GH, um rato no lugar da barata, mas a mesma atmosfera de uma tragédia epifânica prestes a ser desabrochada. “Mineirinho” me marcou tanto quando li a primeira vez e até hoje a força desse texto e seu conteúdo mexem comigo, deixo aqui o trecho final: “Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato. O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.”

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