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    Fronteira -

    Cornélio Penna

    RM Editores
    2008
    210 páginas
    7h 0m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    3.5
    51 avaliações
    Leram77Lendo2Querem65Relendo0Abandonos2Resenhas6
    Favoritos2Desejados65Avaliaram51

    No início dos anos trinta, Cornélio Penna era um artista plástico, cujo traço expressionista-goticizante ilustrava, em diversos livros e revistas, a literatura de amigos. Resolvendo lançar-se a aventura mais complexa, publicou, em 1935, o volume Fronteira, onde deixou a marca de sua estilização, instigantemente insólita, no texto e nos desenhos. A narrativa, em primeira pessoa, apresenta o tom introspectivo e a sequência descontínua de um diário. Este é atribuído a uma personagem anônima, identificada apenas como parente, que retorna, anos depois, ao velho casarão familiar. Lá, testemunha a trama inesperada de certa Tia Emiliana, cujo comportamento diabólico e devoto induz a dona da casa, Maria Santa, a jejuar, imobilizar-se e deixar-se venerar como produtora de milagres. Perplexo e fascinado pelo processo de santificação de sua amiga, o narrador busca, ao mesmo tempo, decifrar a causa de seus próprios remorsos angustiantes. São, justamente, sentimentos de fascínio e perplexidade, que o romance desencadeia, no leitor. Da mesma forma que o visitante, vindo da claridade da rua, precisa de alguns minutos para acostumar-se à penumbra dos enormes cômodos da casa, também a leitura do relato se arrasta pelas primeiras páginas, quando se luta para compreender a narração sugestiva e oblíqua. Daí em diante, é impossível fechar o livro. Os enigmas do enredo empurram os olhos ao longo das linhas; a ambiguidade das personagens atrai a atenção com força igual à do milagre. A tomada de contato com o texto e as ilustrações do romance corresponde a um momento de choque, vivido na companhia do narrador, sempre oscilante entre o bom senso e a loucura. Enquanto os capítulos vão sendo devorados, inveja-se a posição das personagens secundárias, que, servindo de duplo a esse narrador-testemunha, são conduzidas à fronteira, onde o saber se revela como experiência de vertigem.

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    Resenhas (6)Ver mais
    Matheus Petris picture
    Matheus Petris30/07/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Há, neste romance-inaugural da prosa de Penna, uma certa atmosfera que se encadeia de forma paulatina. Tal encadeamento se estrutura em torno de mistérios: Quem é o narrador-personagem, aquele que escreveu o diário? Quais mistérios guardam a família de Maria Santa e de Tia Emília? Quais mistérios essa casa guarda? Que papéis são esses que um Juiz levou para a casa? E há mais, mas quase todas sem respostas. Um passado sangrento se esconde. A atmosfera de mistério faz com que enxerguemos apenas penumbras. É o que a narrativa revela no plano do conteúdo. Ao invés do protagonista jogar luz sobre as cenas que se desenrolam em sua frente, ele joga sombras. Cenas acontecem, causos ocorrem, personagens conversam, enquanto nós, leitores, acessamos apenas as impressões subjetivas dele, suas angústias, suas dores. Um certo torpor embala seu caminho, anuviado do onírico. O insólito reside menos no mistério que envolve toda a atmosfera da trama, do que em conversas banais com pessoas que sabem mais sobre o protagonista do que ele próprio. Logo no início do livro, é o diarista-protagonista quem diz: “Parece-me que entrei nesta cidade furtivamente como alguém que volta da prisão”. Similar ao que acontece no conto O Regresso, de Miguel Torga, enquanto o protagonista de Torga retorna ao seu país depois de voltar da guerra e notar uma enorme muralha entre seu passado e seu presente, decidindo não retornar após ser questionado por uma criança, que pergunta quem ele é, o protagonista de Penna retorna, mas continua sem saber quem é. Citando novamente Torga: "Nem o nome que recebera na pia baptismal o designava já, porque no homem passado não cabia o homem presente". Uma lassidão envolve essa personagem, o tempo da narrativa se retarda, se condensa. Há tanto sofrimento e dor, que a relação entre o que é sonho, devaneio e realidade, deixa de ser uma questão para o livro. O sagrado e o profano se entrecruzam. Na espera pelo milagre de que Maria Santa é protagonista, uma tensão sexual existe entre ela e o diarista. Ele se envolve pelo erótico, mas acima de tudo, pelos mistérios que se anuviam em sua frente. Suas caminhadas por outras casas, por escadas, por uma Igreja, intensifica sua imaginação “inquieta e doente”, nas palavras dele… É nesse sentido que o título se estabelece, a fronteira entre loucura e razão, o que nos é revelado pelo curto epílogo… que também pouco explica. “Que segredo guardaria aqueles móveis velhos e cansados?” A pergunta que Ele se faz e nós, mesmo ao fim da leitura, também.

    59 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    3.5 / 51
    • 5 estrelas16%
    • 4 estrelas33%
    • 3 estrelas33%
    • 2 estrelas14%
    • 1 estrelas4%
    Cornélio Penna profile picture

    Cornélio Penna

    Cornélio Penna foi um romancista, pintor, gravador e desenhista do Brasil. Participou da Segunda Fase do Modernismo no Brasil e criou o realismo psicológico brasileiro.<br>Penna iniciou seus estudos em Campinas, formando-se em Direito em São Paulo em 1919 e, no ano seguinte, deu início a sua carreira artística na cidade do Rio de Janeiro. Lá realizou sua primeira exposição pessoal, em 1920, tendo trabalhado como pintor, gravador, ilustrador, jornalista e desenhista em jornais ou de forma independente. Na década de 1930 abandona as artes plásticas em favor da literatura, a qual passa a dedicar-se integralmente.<br>Escreveu quatro romances na linha psicológica de ficção brasileira (1935-1954): os romances Fronteira (1935), Dois romances de Nico Horta (1939), Repouso (1948) e A Menina Morta (1954). A Menina Morta é considerado um dos melhores romances já escritos no Brasil. Suas histórias são caracterizadas pelos capítulos curtos e pela criação de uma atmosfera de estranheza.<br>Com sua morte, deixa inacabado Alma Branca.

    8 Livros
    11 Seguidores
    Rio de Janeiro, Brasil

    Cornélio Penna