Fronteira -

    Cornelio Penna

    Ediouro
    1989
    100 páginas
    3h 20m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    No início dos anos trinta, Cornélio Penna era um artista plástico, cujo traço expressionista-goticizante ilustrava, em diversos livros e revistas, a literatura de amigos. Resolvendo lançar-se a aventura mais complexa, publicou, em 1935, o volume Fronteira, onde deixou a marca de sua estilização, instigantemente insólita, no texto e nos desenhos. A narrativa, em primeira pessoa, apresenta o tom introspectivo e a sequência descontínua de um diário. Este é atribuído a uma personagem anônima, identificada apenas como parente, que retorna, anos depois, ao velho casarão familiar. Lá, testemunha a trama inesperada de certa Tia Emiliana, cujo comportamento diabólico e devoto induz a dona da casa, Maria Santa, a jejuar, imobilizar-se e deixar-se venerar como produtora de milagres. Perplexo e fascinado pelo processo de santificação de sua amiga, o narrador busca, ao mesmo tempo, decifrar a causa de seus próprios remorsos angustiantes. São, justamente, sentimentos de fascínio e perplexidade, que o romance desencadeia, no leitor. Da mesma forma que o visitante, vindo da claridade da rua, precisa de alguns minutos para acostumar-se à penumbra dos enormes cômodos da casa, também a leitura do relato se arrasta pelas primeiras páginas, quando se luta para compreender a narração sugestiva e oblíqua. Daí em diante, é impossível fechar o livro. Os enigmas do enredo empurram os olhos ao longo das linhas; a ambiguidade das personagens atrai a atenção com força igual à do milagre. A tomada de contato com o texto e as ilustrações do romance corresponde a um momento de choque, vivido na companhia do narrador, sempre oscilante entre o bom senso e a loucura. Enquanto os capítulos vão sendo devorados, inveja-se a posição das personagens secundárias, que, servindo de duplo a esse narrador-testemunha, são conduzidas à fronteira, onde o saber se revela como experiência de vertigem.

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    Matheus Petris picture
    Matheus Petris30/07/2023Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Há, neste romance-inaugural da prosa de Penna, uma certa atmosfera que se encadeia de forma paulatina. Tal encadeamento se estrutura em torno de mistérios: Quem é o narrador-personagem, aquele que escreveu o diário? Quais mistérios guardam a família de Maria Santa e de Tia Emília? Quais mistérios essa casa guarda? Que papéis são esses que um Juiz levou para a casa? E há mais, mas quase todas sem respostas. Um passado sangrento se esconde. A atmosfera de mistério faz com que enxerguemos apenas penumbras. É o que a narrativa revela no plano do conteúdo. Ao invés do protagonista jogar luz sobre as cenas que se desenrolam em sua frente, ele joga sombras. Cenas acontecem, causos ocorrem, personagens conversam, enquanto nós, leitores, acessamos apenas as impressões subjetivas dele, suas angústias, suas dores. Um certo torpor embala seu caminho, anuviado do onírico. O insólito reside menos no mistério que envolve toda a atmosfera da trama, do que em conversas banais com pessoas que sabem mais sobre o protagonista do que ele próprio. Logo no início do livro, é o diarista-protagonista quem diz: “Parece-me que entrei nesta cidade furtivamente como alguém que volta da prisão”. Similar ao que acontece no conto O Regresso, de Miguel Torga, enquanto o protagonista de Torga retorna ao seu país depois de voltar da guerra e notar uma enorme muralha entre seu passado e seu presente, decidindo não retornar após ser questionado por uma criança, que pergunta quem ele é, o protagonista de Penna retorna, mas continua sem saber quem é. Citando novamente Torga: "Nem o nome que recebera na pia baptismal o designava já, porque no homem passado não cabia o homem presente". Uma lassidão envolve essa personagem, o tempo da narrativa se retarda, se condensa. Há tanto sofrimento e dor, que a relação entre o que é sonho, devaneio e realidade, deixa de ser uma questão para o livro. O sagrado e o profano se entrecruzam. Na espera pelo milagre de que Maria Santa é protagonista, uma tensão sexual existe entre ela e o diarista. Ele se envolve pelo erótico, mas acima de tudo, pelos mistérios que se anuviam em sua frente. Suas caminhadas por outras casas, por escadas, por uma Igreja, intensifica sua imaginação “inquieta e doente”, nas palavras dele… É nesse sentido que o título se estabelece, a fronteira entre loucura e razão, o que nos é revelado pelo curto epílogo… que também pouco explica. “Que segredo guardaria aqueles móveis velhos e cansados?” A pergunta que Ele se faz e nós, mesmo ao fim da leitura, também.

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