Anselm Jappe usa os primeiros capítulos do livro para algo essencial: demonstrar as bases da teoria do valor marxiana presentes no início de O Capital. Valor de uso, valor de troca, trabalho concreto, trabalho abstrato, etc. Jappe consegue expor muito bem as conclusões a que Marx chegou ao escrever sobre a sociedade do capital (sociedade burguesa, sociedade mercantil, como quiser chamar). Marx não a julga como uma sociedade boa ou má, nem recorre a um moralismo simplista para descrevê-la; não a chama de injusta ou coisa do tipo e nem sequer diz que ela não funciona. No entanto, chega à seguinte conclusão: ela é pura loucura. Fundamentalmente tautológica. E, nessa completa loucura, há um componente essencial: o valor.
A questão é a seguinte: por que razão o trabalho, a atividade produtiva, toma a forma do valor? Bem, para isso, é necessário voltar à célula germinal da sociedade capitalista: a mercadoria. A partir da compreensão dos fatores que constituem a mercadoria, o duplo caráter do trabalho e o fetichismo, percebe-se algo fundamental: o trabalho abstrato cria valor, mas não cria riqueza.
O valor e a mercadoria possuem sutilezas metafísicas, visto que não têm corpo, não exprimem nada de sensível ou concreto. No entanto, isso não significa que não sejam reais, muito pelo contrário. Trata-se da primeira sociedade em que o laço social se torna abstrato, separado do restante, e em que essa abstração, precisamente enquanto abstração, se torna uma realidade.
A transformação do trabalho abstrato em dinheiro é o único objetivo da sociedade mercantil; a produção de valores de uso, em sua totalidade, nada mais é do que um meio, um mal necessário.
A inversão entre o concreto e o abstrato nas relações entre duas mercadorias apresenta-se agora como a lei fundamental de toda uma sociedade, a nossa, na qual o concreto serve apenas para alimentar a abstração materializada: o dinheiro.
Em suma, ao fazer uma crítica radical ao valor, ao trabalho abstrato e à mercadoria, realiza-se uma crítica ao próprio mundo.