“Os Três Mosqueteiros” é um nome que carrego desde criança, porque, mesmo sem ter lido o livro, minha infância foi cheia de referências: na TV, em desenhos para pintar, citado em outras histórias ou simplesmente em uma brincadeira. Os clássicos carregam essa magia que não tem compromisso com o tempo: atravessam-no e se fazem conhecidos antes mesmo de serem abertos. Não sei se conseguirei expressar o quão doce foi essa jornada que, de certa forma, começou quando eu ainda era menina, mas adianto que encontrei um universo muito mais vasto, encantador e divertido do que imaginei.
É importante ressaltar, antes de mais nada, que Dumas teve acesso a registros e crônicas históricas daquele período (anos 1600) para basear a história que foi publicada há quase 200 anos (1844), e que mistura acontecimentos e personagens reais — como o rei Luís XIII, a rainha Ana da Áustria e o ambicioso Cardeal Richelieu — com figuras ficcionais, como os próprios mosqueteiros. Ele juntou duas das coisas que mais amo: história e aventura. E nem preciso dizer o quanto eu gostaria de ter essa esperteza e criatividade para escrever uma história. À primeira vista, ele parece não ter feito muito esforço para construir sua trama: encontrou uma França cheia de conflitos internos e jogos de poder externos, além de dilemas sociais, e adicionou alguns personagens que dariam um certo alívio cômico àquelas tensões. Como não daria certo? Mas só um escritor engenhoso como Dumas saberia aproveitar esse tipo de contexto histórico, lapidá-lo e transformá-lo em entretenimento de excelente qualidade, entregando ação, emoção e uma experiência inesquecível.
Não posso continuar sem falar de nossas grandes estrelas: o jovem destemido e sonhador d’Artagnan, que sai de sua terra em busca do título de mosqueteiro do rei e, em Paris, conhece os três mosqueteiros: o nobre e reservado Athos, que carrega segredos do passado e é atormentado por eles; o pomposo e de bom coração Porthos; e o elegante Aramis, que vive dividido entre a vida militar e o desejo de ser padre. São eles que, juntos, carregam o lema “Um por todos e todos por um” e nos ensinam sobre honra, lealdade, amizade e coragem. Agora, enquanto escrevo esta resenha, penso no quão frágeis os relacionamentos podem ser — e em como, na mesma intensidade, podem se corromper por motivos tão banais como dinheiro ou status. Esses homens me impactaram por estarem prontos a morrer uns pelos outros, e suas ações demonstram isso ao longo de toda a narrativa. Eu prezo muito as amizades e sou leal a elas, e foi muito bonito vê-los tão comprometidos não só com suas obrigações como mosqueteiros, mas como verdadeiros amigos.
A leitura é ágil, envolvente e faz a gente se sentir dentro da história, acompanhando os duelos cheios de ação, os diálogos engraçados e as situações mais inesperadas. Quando vemos, os mosqueteiros já estão metidos em outra aventura, e a gente vai junto, rindo, torcendo e se sentindo parte das confusões, das conspirações e das trapalhadas. Cada um deles tem um jeito muito próprio, e, embora d’Artagnan seja o campeão das confusões e das cenas mais cômicas, todos acabam nos fazendo rir. Eu e Luiz, meu parceiro de vida e leitura, nos divertimos demais com as conversas e as enrascadas em que eles se metem. As risadas começaram logo no início, com a presença marcante do jovem d’Artagnan encontrando os mosqueteiros e marcando um duelo com cada um deles — se tem alguém que gosta de briga, esse alguém é o d’Artagnan, o famoso “cabeça quente”. Se não fosse pelo contexto histórico, pela ambientação e por já ter uma ideia do enredo, eu nem perceberia que estava lendo um clássico. A narrativa é leve, cativante e tão envolvente que parece escrita para qualquer tempo.
Acredito que, quando estávamos chegando da metade para o final da leitura, Luiz comentou comigo que achava que as coisas estavam demorando a acontecer — percepção que eu, sinceramente, não tive. E acho que muita gente pode acabar sentindo que a história se arrasta um pouco em certos momentos, como se faltasse uma preparação para levar o leitor a um final fascinante. Mas parece que o Dumas, como se tivesse um pressentimento disso, não só atende às expectativas que seus leitores poderiam colocar na obra, como, na minha opinião, as supera. A história toma um rumo diferente, mais maduro, e se afasta daquela atmosfera leve do começo. Somos envolvidos em uma subtrama que apresenta uma das vilãs mais notáveis que já conheci na literatura. É como se Dumas estivesse contando uma história para uma criança e, de repente, se surpreendesse com o próprio tom da narrativa, percebendo que ela ainda não estava pronta para o que vinha a seguir. Lembro de sentir algo parecido quando lia O Conde de Monte Cristo, quando o final ganhou uma força que me fazia não querer parar de ler. Se antes eu já admirava o autor, depois de ver, mais uma vez, o seu brilhantismo em criar reviravoltas, passei a admirá-lo ainda mais. Se você é o tipo de leitor que começa um livro sabendo qual é a sua proposta, mas ainda assim espera algo a mais, tenho certeza de que vai gostar dessa obra.
Por fim, “Os Três Mosqueteiros” é um clássico para ser lido em qualquer idade, eu diria, mas fico feliz por só tê-lo lido agora, aos 29 anos, e por ter tido o privilégio de sentir essa nostalgia — se é que podemos chamar de nostalgia algo que eu ainda não tinha vivido — e de perceber coisas que, com certeza, eu não enxergaria antes. A Diana de uns 9 anos adoraria dormir ouvindo a história desses bravos e engraçados mosqueteiros. A Diana de 29 também.