Marajó (Ciclo do Extremo-Norte #2) -

    Dalcídio Jurandir

    José Olympio
    1947
    325 páginas
    10h 50m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    "Marajó, história do menino Missunga, ser que aos poucos assume, sem nenhum esforço, como se naturalmente, a condição proprietária de seu mundão marajoara, é escrita de ímpar maravilha verbal em retorno ao prazer do leitor." Amarílis Tupiassú. Trecho da obra: "Já o rio liso o enervava, o estirão da ilha defronte, a marcha de uma barraca noutra margem Dentro do açaizal. Seu pai era o dono daquele rio, daquela terra e daqueles homens calados e sonolentos que, nos toldos das canoas, ou pelas vendas, esperavam a maré para içar as velas ou aguardavam quem lhes pegassem a cachaça. Na cidade, longe da vila, quanta noite de champanhe, espremido do suor e do sangue daqueles caboclos, dos vaqueiros que fediam a couro e a lama ouvindo nos campos os tambores do Espirito Santo. Invejava em certas horas o que os Salmões faziam na fazenda em Chaves; as brutas farras com caboclas, delegados de polícia, promotores de justiça, tabeliães, tesoureiros municipais e carne de novilha gorda assando na brasa debaixo das árvores. Missunga sentia-se como aquela tarde, oco e morno. A pequena igreja olhando o rio, o coreto, os banquinhos do largo, dois benjamins que Coronel plantara no dia da Pátria e os guris jogando pião. Em Paricatuba o mato dava-lhe um receio sem nome. Naquelas verdes espessuras estava a fatalidade, espiando entre os paus, assobiando com os quinquiós. Missunga apanhara no ar a grande palavra: Fatalidade, para explicar os champanhes, o surdo-mudo que o seu parente Guilherme explorava, a morte do garçon e as crônicas do Manfredo. Dois guris, que se atracavam por via do pião, o atraíram. Missunga, vivamente, gritou como sempre gritava aos seus cachorros: - Êta! Isca! Isca! Ei! Isca! A gurizada fechou o círculo. - Golpeia, Pedrinho! Missunga divertia-se. Seus gritos excitavam os guris que rolavam na poeira, sujos e escuros como porcos." *** “Marajó”, em qualquer língua, é literatura brasileira. Mas não é apenas pela sua fidelidade ao ambiente que merece apreço: mas pela sua força descritiva, plena de verdade e de beleza, pela sua maneira de fazer viver a gente que povoa as suas páginas, pela realidade com que traduz os laços sociais que a dominam. Tudo isso é literatura da melhor espécie.” - Nelson Werneck Sodré, historiador. “ … Dalcídio Jurandir é um mestre telúrico. Marajó é um belo romance, pois ninguém melhor do que Dalcídio Jurandir nos comunica a sensação de deserto, do lobo, do calor deliqüescente daquela imensa solidão de nuvens baixas e verdes malhadas que é Marajó. O estilo empolga, com as suas asperezas, seus regionalismos, suas soluções poéticas de um primitivismo expressivo, sua ausência de malícia.” - Sérgio Milliet, escritor. “ Marajó é um volume feito com a verdade cotidiana, com a paisagem exata, com as fisionomias possíveis da existência. E o seu melhor elogio para um etnógrafo.” - Luís da Câmara Cascudo

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    Vitor Dilly04/05/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Oprimidos e opressores: vivências e situações nas Ilhas marajoaras

    Cobras grandes e passarões já não são mais os donos do rio, tomado agora por zebus e vaqueiros. O pai fazendeiro quer que o filho faça zootecnia na capital Belém do Pará, para ajudá-lo na lida... Mas o filho quer sentir o calor dos abraços das caboclas no fundo do mato, lá onde resiste a feitiçaria e a pajelança. E onde se esconde uma irmã secreta... Ele perceberá que o gado é fantasma. Vida mesmo está no cemitério indígena das águas do lago: morubixauas sobem nas igaçabas, jaçanãs voam sobre jacarés que abrem a boca para engolir a noite...

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