Publicado a primeira vez em 1475, Contos da Cantuária é uma das pedras fundamentais da literatura do Ocidente, uma coleção magistral de histórias de cavalaria, alegorias morais e farsa desbragada. Escritas pelo britânico Geoffrey Chaucer, as histórias ajudaram - assim como Dante e Cervantes fizeram em suas respectivas culturas literárias - a sedimentar a literatura de todo um país. Tudo começa a partir de um certame entre peregrinos acerca das melhores histórias de cavalaria e romances. Rico e diverso, o livro descortina - com crueza e lirismo, graça e deboche - o universo social e cultural da Inglaterra em plena Idade Média. Anedotas, ciclos cavalheirescos, escatologia, ensinamentos edificantes e muita caricatura surgem nas histórias desses peregrinos que rumam em direção à Cantuária, onde pretendem visitar o túmulo de São Thomas Becket. Vertido para o português com maestria, mas sem deixar de lado o humor e a diversão, o livro tem tudo para cativar leitores de todas as idades.
Contos da Cantuária -
Geoffrey Chaucer
Trilha para Cantuária
Assim como outra resenha que vi escrita aqui por um leitor sobre esse livro, me arrependo de não ter lido Contos da Cantuária antes. Em resumo, esta obra de Chaucer escrita em versos trata de uma interessante viagem em época medieval de um grupo de peregrinos que por devoção segue até Cantuária, cidade ao sul da Inglaterra a cerca de 90km de Londres. Instigados pelo taverneiro que os hospedou a todos, os membros dessa romaria contam contos que outrora ouviram, leram ou presenciaram, a fim de entreter a trilha da viagem. As histórias em geral têm um cunho moral ou religioso do período medievo, e de quase todas pode-se tirar uma lição diferente; o assunto das histórias, contudo, em sua maioria são mulheres - assunto que permeia todo o livro praticamente e que deve ser lido com atenção, por se tratar de uma época distante com costumes diversos aos nossos. Da última vez que me vi assim preso em um livro de contos foi no livro das Mil e Uma Noites, com histórias insólitas que me fizeram imaginar o mundo árabe da época. Aqui o mesmo aconteceu, os contos e as personagens me fizeram ter imagens de como era, ou poderia ser, aquela Inglaterra do fim da Idade Média. Os contos revelavam costumes, pensamentos, comportamentos, superstições e crenças da época que muito me interessaram em ler; além disso, a riqueza de personagens contribuiu muito para montar esse quadro social - aqui temos um grande grupo de peregrinos composto por beatos, pecadores assumidos, fazendeiro, cozinheiro, magistrado, comerciante, cavalheiro e escudeiro, alquimista, viúva de cinco maridos etc., ou seja, um vasto espectro de pessoas que o autor da obra certamente deve ter observado na época em que viveu até morrer no ano de 1400. Para mim, esse foi meu maior benefício em ler este livro: a viagem. Também a forma como cada personagem conta a história é curiosa e mostra uma invejável habilidade do autor em criar personalidades que falassem por si mesmos. Até mesmo me surpreendi ao saber, em artigo escrito por Harold Bloom no fim do livro, que dois dos personagens dos Contos da Cantuária inspiraram W. Shakespeare. Gostei dessa edição do livro, que traduziu a obra original do inglês antigo para o inglês moderno e dele para o português. A leitura foi fluida e repleta de notas explicativas para termos comuns da época que certamente não entenderíamos sem uma explicação.
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